Os planos da Espanha para o Pós-COVID: aprendizado para avançar

O texto de hoje não é autoral. Será a reprodução de uma noticia publicada no site do Ministério da Educação e Formação Profissional da Espanha, no dia 21 de Maio.

A Ministra Isabel Celaá, durante participação em reunião da Comissão de Educação e Treinamento Profissional do Congresso, apontou os caminhos para a melhoria da pasta a partir de 10 frentes de trabalho que envolvem a modernização da educação e a reforma curricular, com o objetivo de garantir o desenvolvimento de habilidades importantes para o futuro:

  1. reformar o currículo, modernizá-lo para garantir o treinamento das habilidades que os alunos precisam para desenvolver;
  2. modernizar a profissão docente para promover a inovação curricular e didática;
  3. intensificar o compromisso com a digitalização do sistema educacional;
  4. modernizar nossa formação profissional;
  5. garantir uma educação em valores cívicos;
  6. personalização da educação para que nenhum talento seja perdido e, assim, reduz o abandono escolar;
  7. reforçar a qualidade da educação infantil de 0 a 3 anos para diminuir a lacuna de aprendizado que ocorre nos estágios mais altos;
  8. continuar a melhorar a participação da comunidade educacional na organização, governo, operação e avaliação das escolas;
  9. melhorar a autonomia pedagógica e organizacional dos centros;
  10. investir em pesquisa e desenvolvimento e pesquisa educacional;

A ministra destacou ainda o papel importante das comunidades escolares e autônomas no apoio às mudanças propostas para a continuidade pedagógica do sistema escolar durante o período de isolamento social no país.

Para ler a notícia na íntegra, clique neste link.

Reflexões sobre o currículo da educação básica em tempos de isolamento social

Em tempos de pandemia, o mundo passa por um grande dilema. A crise sanitária se arrasta e mantém as restrições de convívio social. Existe um cenário futuro de dificuldades financeiras para muitos países (inclusive o Brasil) e de vulnerabilidade social para uma grande parcela da população.

Essa equação suscita vários questionamentos que resvalam na educação, sobretudo, na escola pública. Qual o papel da educação neste momento? Muitos especialistas apontam para a importância da continuidade pedagógica e da manutenção dos vínculos entre a família e a escola.

Isso evitaria, principalmente, a pauperização intelectual da maioria dos jovens do país, que carecem de acesso à recursos financeiros, ao aparelho cultural e às ferramentas de escolarização não formal.

Em resumo, a escola deveria cumprir o seu papel social de conectar os alunos com o mundo que se desenha neste momento.

Sendo assim, cabem algumas perguntas : neste momento de excepcionalidade, qual deve ser o foco do trabalho pedagógico? Qual o papel do currículo neste momento?

O que os alunos precisam aprender neste ano letivo anormal, com desafios que vão além das demandas cognitivas, e esbarram em profundos problemas sociais ou emocionais da sociedade que enfrenta a COVID-19?

Estas perguntas resvalam em mais mais de 1,7 bilhão de estudantes submetidos a modelos de educação não presencial. Muitos países desenvolveram estratégias sistêmicas de atendimento remoto mediado ou não por tecnologia, para que os estudantes tivessem acesso à atividades pedagógicas neste momento.

Em postagens anteriores tivemos a oportunidade de conhecer algumas dessas experiências. Nesta postagem, nosso objetivo é discutir como os diferentes sistemas de ensino estão realizando a gestão curricular, bem como lançar algumas reflexões sobre as estratégias e possibilidades de decisão acerca as aprendizagens promovidas à distância.

Vale a pena entender em qual direção o Brasil está caminhando para tomar decisões como:

– Quais as prioridades curriculares que norteiam o trabalho docente?

– O que é importante que o aluno aprenda neste momento?

– Quais aprendizados essenciais devem balizar as atividades pedagógicas à distancia?

Para responder à esta pergunta no Brasil vamos recorrer ao maior “guarda chuva normativo e sugestivo” produzido até o momento: o Parecer 05/2020.

Este documento foi produzido pelo Conselho Nacional de Educação no final do mês de Abril, e tem como objetivo nortear o processo de continuidade pedagógica na educação pública e privada, estabelecendo alguns parâmetros para a oferta do ensino remoto das diferentes etapas e modalidades da educação básica e superior.

O ponto chave, segundo o CNE, é minimizar os impactos das medidas de isolamento social na aprendizagem dos estudantes, considerando a longa duração da suspensão das atividades educacionais de forma presencial nos ambientes escolares.

Segundo o Conselho, a manutenção do vínculo com as escolas decorre, sobretudo, do atendimento aos direitos e objetivos de aprendizagem previstos na Base Nacional Comum Curricular e nos currículos alinhados a este documento.

A partir desta premissa, o parecer propõe algumas estratégias de reorganização dos calendários escolares visando o cumprimento das 800h de atividades pedagógicas previstas na LDB e amparadas na Medida Provisória nº 934/2020, que flexibilizou excepcionalmente a exigência do cumprimento dos 200 dias letivos obrigatórios.

As propostas de reorganização dos calendários escolares para o ano letivo de 2020 devem considerar ainda, as seguintes estratégias para o cumprimento das 800h anuais (Brasil, CNE,p.21):

a) reposição da carga horária de forma presencial ao final do período de emergência;

b) cômputo da carga horária de atividades pedagógicas não presenciais realizadas enquanto persistirem restrições sanitárias para presença de estudantes nos ambientes escolares coordenado com o calendário escolar de aulas presenciais; e

c) cômputo da carga horária de atividades pedagógicas não presenciais (mediadas ou não por tecnologias digitais de informação e comunicação), realizadas de forma concomitante ao período das aulas presenciais, quando do retorno às atividades.

A partir dessas possibilidades de reposição, o documento do CNE traz alguns caminhos para o cumprimento do que está estabelecido por lei. No entanto, existem algumas lacunas naturais do documento que estão ligadas às perguntas que fizemos no início do texto. Vou tentar decompor as primeiras perguntas em outras duas, que são mais pragmáticas no que tange o trabalho das escolas:

1 – Como reorganizar o currículo considerando as particularidades do ensino remoto, que muda de forma alinhada ao cenário de aprendizagem (ambiente escolar versus ambiente domiciliar) e o processo de mediação pedagógica (relação professor e aluno)?

2 – No período de isolamento social, qual deve ser o foco do currículo praticado na escola: revisões / aprofundamentos ou trabalhar conhecimentos novos?

Muitos sistemas educacionais e escolas planejaram mudanças rápidas e drásticas em suas formas de trabalho. Ainda não temos a dimensão do que pesou mais nas escolhas dos tomadores de decisão (burocracia ou currículo).

No entanto, um rápido passeio nos portais eletrônicos, ambientes virtuais (construídos de forma relâmpago de norte a sul) e orientações locais, aumenta a minha dúvida se a gestão curricular sofreu alguma adequação para o ensino remoto ou o esforço foi de replicar modelos tradicionais para as aulas “EaD” apenas para cumprir a carga horária prevista para este ano letivo.

O parecer do CNE faz uma provocação muito interessante acerca da necessidade de repensar a organização formal das aprendizagens, considerando a legislação vigente, mas sobretudo, a situação atípica do nosso país:

“A legislação educacional e a própria BNCC admitem diferentes formas de organização da trajetória escolar, sem que a segmentação anual seja uma obrigatoriedade. Em caráter excepcional, é possível reordenar a trajetória escolar reunindo em continuum o que deveria ter sido cumprido no ano letivo de 2020 com o ano subsequente. Ao longo do que restar do ano letivo presencial de 2020 e do ano letivo seguinte, pode-se reordenar a programação curricular, aumentando, por exemplo, os dias letivos e a carga horária do ano letivo de 2021, para cumprir, de modo contínuo, os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento previstos no ano letivo anterior. Seria uma espécie de “ciclo emergencial”, ao abrigo do artigo 23, caput, da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996.” (CNE, 2020, p.4)

O parecer desafia as secretarias de educação a redefinir os tempos de aprendizagem para garantir que os alunos não tenham perdas neste momento da sua trajetória formativa.

O CNE fala inclusive, de ciclos emergenciais, que cuidariam a princípio, da transição entre os anos letivos de 2020 e 2021. Isso significa reorganizar a progressão de aprendizagem, criando novas pontes para o desenvolvimento das habilidades presentes nos currículos locais.

Este desafio está diluído ao longo do documento. No entanto, carece ainda de algum refinamento. Estamos falando do mesmo currículo?

É importante salientar que, especialmente no Brasil, não construímos documentos curriculares que preparem os professores para atuar em contextos de isolamento social, riscos de pandemias e outras catástrofes naturais.

Este nunca foi o caso do Brasil e de muitos outros países mundo afora. Talvez por isso seja tão difícil promover mudanças tão profundas em pouco tempo.

Antes de seguir para as próximas reflexões, vale muito a pena definir um pouco mais o que estou chamando de currículo. Para este texto, me faço valer das definições de Larry Cuban (1995), que enxerga este documento em suas diferentes dimensões: desde o documento oficial de um sistema de ensino com padrões e expectativas, até o currículo testado, que é contextualizado pelo professor e atinge níveis mais profundos e enredados à realidade concreta dos alunos em cada escola.

O isolamento social mudou drasticamente a nossa dinâmica social. Isso interfere diretamente no objeto e objetivo da ação pedagógica. Nesse sentido, me parece que urge a necessidade de repensar o papel do currículo e das sua formas de implementação, considerando o curto e o médio prazos (quiçá no longo prazo).

As secretarias de educação são responsáveis, geralmente, por definir os grandes objetivos da aprendizagem na escola a partir de currículos ou referenciais gerais. Em suma, o que é bom que todos os alunos aprendam a partir de uma visão geral de sociedade. Daí decorrem as primeiras escolhas pedagógicas para todos alunos. Caberia então às escolas um processo de tradução e adaptação dessas grandes metas.

Esse processo, segundo Lee Shulmann, depende da compreensão acerca da realidade dos alunos e de processos didáticos e pedagógicos compatíveis com as demandas das crianças e jovens.

Quando mudanças nesses processos gerais e específicos acontecem, torna-se necessário algum tipo de adequação estratégica que atenda e (re)equilibre as demandas sociais, políticas, econômicas e individuais.

A COVID-19 certamente trouxe a necessidade de repensar alguns desses elementos. O principal ponto é: quais aprendizagens nossos alunos precisam para este momento? A resposta precisa refletir nas escolhas curriculares das escolas.

Esse processo não deve ser aleatório. Deve ser pensado de ponta a ponta no sistema educacional. Assim será possível planejar estrategicamente o funcionamento das escolas no contexto do ensino remoto e gerenciar o retorno ao modelo de atendimento presencial.

Obviamente não se trata de algo simples.

Podemos levantar de forma bem rápida alguns desafios de curto prazo para o atingimento de qualquer objetivo pedagógico neste momento:

– Pouca ou nenhum mediação pedagógica com os alunos;

– Capacidade de intervenção limitada por parte do professor;

– Alunos não possuem, na maioria das vezes, os recursos ideais para realizar todas as atividades propostas;

– Alguns alunos não tem domínio de seus recursos internos para realizar atividades em casa (recursos metacognitivos).

– A casa não substitui a escola e;

– A família não substitui o professor.

Daí decorre a necessidade de repensar o currículo e as suas formas da gestão nos níveis macro (na secretaria de educação) , meso (contextualizando o currículo no nível da escola) e micro (“operacionalizando a aprendizagem” nos espaços educacionais).

As escolhas curriculares no momento emergencial da COVID-19 seguem a perspectiva de priorização das trajetórias de aprendizagem considerando, em linhas gerais, as necessidades dos estudantes e as possibilidades de atuação no contexto do ensino remoto.

Nesta direção, muitos sistemas de ensino definiram princípios orientadores gerais para que as escolas façam escolhas relevantes, com base no currículo, e no cenário de continuidade pedagógica.

Vou citar nas próximas linhas alguns casos interessantes acerca deste processo:

a) O documento Propuestas Educacion Trabajo Interuniversitário, produzido pela Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, no Chile, define uma serie de orientações que amparam as decisões curriculares no sistema educacional, em três dimensões inter-relacionadas: nível macro (políticas públicas educacionais), intermediário (municípios, serviços locais de educação e apoio a instituições particulares), e micro (escolas e salas de aula).

Segundo o documento, as decisões “de priorização curricular devem ser orientadas por critérios de relevância, pertinência, integração e factibilidade. É necessário decidir se o aluno deve priorizar os objetivos de aprendizagem (OA) mais essenciais (sobre os que se fundam ou constroem a disciplina); os OA mais específicos (pertinentes à vida e à realidade); los OA mais interdisciplinares (suscetíveis de relacionar-se com OA de outras disciplinas); e aquelas que sejam factíveis de realizar (que contem com as condições materiais para a sua implementação)”.

b) O site do Departamento de Educação da Inglaterra traz algumas recomendações para que os professores possam adaptar suas práticas ao ensino remoto considerando o planejamento curricular:

A quantidade de conteúdo curricular que as escolas estão tentando ensinar: Os professores devem refletir o que os alunos devem realmente ensinar neste momento de isolamento. Segundo a departamento, muitas escolas estão descobrindo formas pragmáticas para abordar o currículo, cobrindo conceitos mais importantes e priorizando alguns grupos de alunos.

Equilibrar a consolidação do conhecimento prévio com o ensino de novos conteúdos: As escolas têm mesclado momentos onde apoiam os alunos com atividades de reforço e aprofundamento à aprendizagem, para que posteriormente abordem novos conhecimentos quando os alunos estiverem devidamente preparados.

Adaptação à fase e assunto : As escolas estão personalizando as estratégias curriculares de acordo com as fases e os temas trabalhados. Em turmas do 10º ano, o foco é na exposição a materiais novos, enquanto no ensino primário há um foco em atividades de leitura. Existem escolas que em, séries diferentes, lançam mão de atividades de revisão e em outras o trabalho com conteúdos novos;

Abordagens de colaboração e compartilhamento :Para fortalecer o engajamento e a integração entre professores da mesma escola (e de escolas diferentes) a desenvolver atividades de planejamento e execução em grupo. Essa perspectiva, segundo o Departamento, é uma forma de mitigar o desgaste da rotina de trabalho docente;

Adaptação do currículo remoto para alunos com necessidades especiais: É necessário considerar como as abordagens de educação remota podem ser adaptadas para garantir que o conteúdo seja acessível a alunos com necessidades e deficiências educacionais especiais. Isso significa que devem ser produzidos pacotes de atividades personalizadas às atividades dos alunos.

c) Os dois modelos anteriores produziram orientações que norteassem as escolhas curriculares das escolas e definem um caminho possível. O terceiro exemplo traz uma estratégia de priorização curricular produzida pela Secretaria Municipal de Educação de Londrina-PR.

A gestão municipal elaborou princípios que norteiam as atividades pedagógicas de toda a rede. Segundo os documentos orientadores, os Planos de Estudos Domiciliares (PED) não trabalharão com conteúdos novos, principalmente àqueles que tenham aspectos procedimentais e que precisam da mediação dos professores. Para isso, o plano, tem por objetivo promover uma rotina diária de estudos e consolidar aprendizagens em construção.

A Secretaria disponibilizou, a partir da análise do documento curricular local, uma série de documentos com um rol de objetivos de aprendizagem essenciais para cada ano, com a finalidade de orientar gestores e professores no planejamento do primeiro e segundo bimestre letivos.

A soma das orientações e das experiências nos três casos anteriores objetivam garantir foco e prioridade pedagógica durante a pandemia. Elas neste tema pouco explorado nas discussões e lives promovidas Brasil afora: como discutir o papel do(s) currículo(s) neste ano?

Podemos divagar sobre um tripé importante para as definições da atuação das escolas neste momento. A imagem abaixo sintetiza algumas grandes decisões importantes que sistemas de ensino e escolas precisam tomar neste momento:

A essência do que fazer com as 800h anuais no ano letivo de 2020 vai além das discussões normativas sobre organização de calendário e alocação de carga horária. Discutimos esses aspectos com muita intensidade para buscar as melhores respostas sobre o funcionamento das escolas. Discutimos com o mesmo afinco as condições operacionais (como ensinar) de atuação no contexto do ensino remoto. Falta ainda um olhar para o currículo.

Considerando o lugar que estes três assuntos ocupam nas discussões, fico com a sensação de que, mais uma vez, as conversas sobre o que ensinar ficaram alijadas dos grandes debates. No momento em que as discussões aconteceram, seu foco foi diretamente na escola. O que a escola deve ensinar neste momento? O que os professores devem fazer?

Obviamente o tema atende a uma necessidade mais imediata, que atinge a ponta do processo, onde as coisas realmente acontecem. Especialistas e educadores, em sua maioria, desconhecedores das práticas locais e mesmo do currículo oficial da rede, trouxeram suas experiências e fórmulas mágicas sobre “o que ensinar em tempos de pandemia”?

Essa é justamente a pergunta de “um milhão de dólares” que faz com que as lives fiquem lotadas de professores e gestores escolares. Mas é interessante assistir as escolas buscando essa resposta fora do próprio sistema de ensino.

As escolas tem na maioria das vezes um currículo oficial (torcemos que estejam alinhados à BNCC), provido de intencionalidade e que deve ser a bússola para guiar as primeiras escolhas de conteúdos e habilidades para o trabalho pedagógico em qualquer momento do calendário escolar.

Neste sentido, a pergunta que vai orientar as próximas linhas deste texto é : como os sistemas / secretarias de educação podem ajudar as escolas a fazer escolhas a partir do currículo em tempos de pandemia?

Vimos algumas respostas nos três exemplos citados nesse artigo. A minha proposta é apresentar um racional para este processo de decisão que considere, numa visão horizontal, o alinhamento de expectativas entre secretaria de educação e escolas.

O objetivo é que o currículo siga como fio condutor das escolhas dos professores, com base num entendimento sistêmico sobre quais as trilhas de aprendizagem que as escolas podem seguir neste momento, garantindo equidade e visão sistêmica para o conjunto da rede.

A imagem abaixo é uma síntese deste processo. A seguir segue uma breve reflexão sobre cada etapa:

Desenvolver um olhar sistêmico (secretaria e escolas) sobre a definição das direções curriculares neste momento, pode trazer alguns ganhos no planejamento pedagógico no curto prazo:

– Um olhar para as prioridades da educação e na elaboração de insumos de apoio que atinjam todas as escolas em uma secretaria;

– Ao estabelecer princípios gerais da priorização, as escolas podem orientar seus currículos para os desafios locais sem perder a visão do todo;

– Em modelos de priorização curricular feitas pela escola, é possível garantir uma flexibilização das aprendizagens considerando a identidade da comunidade;

– É possível mitigar os riscos de equidade no processo educativo, garantindo a oferta de aprendizagens essenciais do currículo escolar;

– Uma espinha dorsal no processo de priorização pode favorecer o trabalho dentro da escola e a articulação entre escolas;

Em todos os modelos de gestão curricular (mais focados na secretaria, nas escolas ou híbrido), ter a clareza sobre o que os alunos deveriam aprender têm (ou deveria ter) um impacto direto nas estratégias de continuidade pedagógica durante a pandemia.

Pensando no retorno às aulas presenciais e na necessidade de avaliar os avanços e retrocessos à luz de princípios curriculares, faz-se ainda mais necessário que haja clareza sobre o trabalho realizado nas escolas, para que os próximos passos estejam alinhados e atendam a todos os alunos.

Este texto não dá conta de abordar a complexidade de cada uma das etapas de priorização curricular propostas. O objetivo é justamente colocar luz nesses pontos. A minha experiência na atuação em temas curriculares em sistemas de educação apontam para este caminho. O currículo é o coração de um sistema educacional.

A partir dele se constroem as políticas educacionais e se estrutura os insumos indiretos (programas, projetos, modelos de distribuição de verba, etc) de apoio à aprendizagem para os alunos.

Não podemos deixar de lado o currículo nesse momento crítico para a educação.

Não acredito que o maior legado da educação em tempos de pandemia será o aprofundamento das estratégias remotas. A educação vai mudar (ou deveria) pela reflexão sobre o papel da escola neste momento: devemos reproduzir modelos tradicionais (focado em conteúdos e tarefas) ou focar em currículos emergenciais que atendam às expectativas do nosso aluno nesse momento?

Acredito no papel transformador dos conhecimentos curriculares na sociedade. Mas acredito ainda mais em currículos que ajudem a resolver problemas e dilemas da sociedade. Quais os dilemas do mundo hoje? Se temos que preservar a vida, como os currículos escolares ajudam a cumprir essa tarefa?

Qual o papel que a educação cumprirá neste momento tão difícil? Saberemos em breve.

Referências:

France. Ministère de l’Education nationale et de la jeunesse – Plan ministériel de prévention et de gestion COVID-19 – https://planipolis.iiep.unesco.org/sites/planipolis/files/ressources/france_covid19_circul.pdf 

Magdalena Claro (OPED y CEPPE UC, Facultad de Educación UC) – Alejandra Mizala (CIAE, Instituto de Estudios Avanzados en Educación, UCh) . Propuestas Educacion Trabajo Interuniversitário. –https://www.lidereseducativos.cl/recursos/propuestas-educacion-trabajo-interuniversitario-mesa-social-covid-19/   

Cuban, L. (1995). The Hidden Variable: How Organizations Influence Teacher Responses to Secondary Science Curriculum Reform. Theory Into Practice, Vol. 34, No. 1, 4-11.

SEMED Londrina – Educação em tempos de COVID 19 (Orientações de rede) – https://www.londrina.pr.gov.br/component/sppagebuilder/?view=page&id=123&Itemid=0

Austrália . Departamento de Educação, Habilidades e Emprego. COVID-19: Princípios Nacionais de Educação Escolar – https://www.dese.gov.au/covid-19/schools/national-principles-for-school-education

North West Shelf. k10 –  Requisitos curriculares para 2020. https://educationstandards.nsw.edu.au/wps/portal/nesa/covid-19/coronavirus-advice/advice-for-schools/k-10-curriculum

Reich, J., Buttimer, C. J., Fang, A., Hillaire, G., Hirsch, K., Larke, L., Slama, R. (2020, April 2). Remote Learning Guidance From State Education Agencies During the COVID-19 Pandemic: A First Look. https://doi.org/10.35542/osf.io/437e2

Autonomia discente: nossos alunos estão preparados para estudar em casa durante a Pandemia?

Em tempos de pandemia, muitas discussões educacionais estão focadas na viabilidade pedagógica das estratégias de continuidade dos estudos em casa durante o isolamento social.

Gostaria de me “cutucar essa onça” em mais um ponto que deve ganhar (ou deveria) visibilidade no planejamento das escolas da Educação Básica a partir da implementação dos currículos alinhados à Base Nacional Comum Curricular. Como apoiar alunos do Ensino Fundamental e Médio a entender qual a melhor forma de aprender? Como ajudar nossos alunos a desenvolver a competência de aprender a aprender?

A Base Nacional define 10 Competências Gerais que são essenciais para o desenvolvimento da trajetória formativa dos estudantes. Elas precisam ser trabalhadas ao longo da Educação Básica junto com os componentes curriculares. Uma delas (a décima) diz que os alunos devem “agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários” (Brasil, p.10).

Ela anda em paralelo com a primeira e a oitava competências gerais da BNCC, que abordam, entre outros aspectos a metacognição, o autoconhecimento e o autocuidado. Elas refletem a capacidade de desenvolver a atenção plena e a autorreflexão. Estes são elementos essenciais para que o estudante seja capaz de compreender como pode aproveitar melhor seus momentos de estudo, seja coletivo, seja individual.

Vale destacar que o desenvolvimento da autonomia ao longo da vida pode ser entendido em várias dimensões. Dentre elas está a capacidade de desenvolver estratégias para seu próprio desenvolvimento cognitivo.

Em uma proposta de educação centrada no aluno, como a que está proposta na Base, é de suma importância que um estudante compreenda quais as melhores estratégias para lidar com as tarefas e os desafios propostos para a aquisição de competências, habilidades e conhecimentos que estão no currículo aplicado no dia a dia escolar.

Assisti recentemente à um vídeo no Youtube chamado “… Student Motivation Through Understanding Themselves as a Learner.” (Motivação do aluno através do entendimento de si mesmo como um aprendiz). O vídeo foi produzido pela Pearson e teve a participação das pesquisadoras e professoras Jodi Patrick Holschuh (PhD e professora associada no Departamento de Currículo e Instrução da Universidade Estadual do Texas) e Sherrie Nist-Olejnik (Professora emérita da Universidade da Geórgia).

Sherrie publicou cerca de 80 artigos ao longo de sua carreira tratando sobre as formas como alunos universitários aprendem e estudam. Segundo elas, ensinar teoria da aprendizagem, teoria das crenças epistemológicas e teoria da aprendizagem motivacional podem ajudar os alunos a compreender como estudar de forma mais eficiente, mitigando as dificuldades e os fracos resultados que apresentam, principalmente nos primeiros anos da Universidade.

Ao longo do vídeo, produzido em 2013, as pesquisadoras apresentam importantes insights sobre como incorporar atividades para o desenvolvimento de estratégias de compreensão do estilo de aprendizagem aos currículos.

Elas apontam três motivos para que os alunos sejam expostos à teorias de aprendizagem:

1 – Aprender é um processo complexo;

2 – Crenças sobre a aprendizagem influenciam a forma como eles aprendem (alunos podem ser desviados de suas melhores estratégias por não conhecê-las com profundidade ou por fazer escolhas erradas);

3 – Ensinar sobre aprendizagem afeta a persistência e motivação dos alunos.

Tema bastante recorrente nos estudos da psicologia cognitiva, e capitaneado, entre outros pesquisadores, pelo americano James J. Jenkins (1923-2012), os modelos de aprendizagem em sala de aula podem trazer mais alguma luz sobre essa discussão.

Segundo o “tetrahedral model of classroom learning” (Jenkins, 1979), na qual as autoras se apoiam, o processo de aprendizagem precisa considerar quatro elementos: as características do aluno (sua motivação, conhecimento sobre estilos de aprender e limitações) , os materiais (textos ou insumos com os quais o aluno deve interagir) ; as tarefas (atividade definida para lidar com os materiais) e as estratégias (habilidades necessárias para lidar com as tarefas).

Na medida em que esses elementos se alinham e os alunos têm clareza sobre as melhores estratégias de aprender, é possivel, segundo Jodi e Sherry, dar-lhes mais autonomia e motivação para a realização das tarefas escolares.

Retornando à realidade da educação brasileira em tempos de pandemia, nossos modelos de estudo por mediação de tecnologia (ou não) demandam dos nossos alunos uma autonomia e capacidade de escolha/uso de ferramentas de estudo que certamente estiveram sempre fora de seus programas escolares.

Já temos na educação brasileira o problema relacionado ao aprendizado. Este bem latente e discutido. Nossos alunos não sabem ler, escrever e calcular com proficiência adequada. Outro problema que ficará escancarado em tempos de pandemia é a falta de autonomia para aprender: muitos alunos não sabem como estudar de forma eficiente. Não compreendem como aprendem melhor: lendo, escrevendo, ouvindo, falando.

Talvez seja uma oportunidade de refletir, na pós-pandemia, sobre como construir planos de aprendizagem que suscitem essa reflexão em nossos alunos. É um tipo de ganho que ultrapassa a própria escola. O ato de aprender acompanha o ser humano ao longo de toda a vida. Por isso, ajudá-lo o quanto antes a avaliar quais as suas próprias crenças sobre este tema e permitir que desenvolvam métodos próprios com base em suas experiências ao longo da vida escolar.

Temos com a Base Nacional e as sua 10 Competências Gerais, que carregam a bandeira da Educação Integral, uma grande oportunidade de mudar nosso modelo educacional. Isso depende dos sistemas de ensino incorporarem a necessidade de “aprender a aprender”. De forma sistêmica, podem orientar gestores e professores a desenvolver em seus programas curriculares momentos onde alunos possam construir a autonomia como uma competência perene, e que sejam capazes de definir e mobilizar o melhor de si.

Quanto mais os alunos controlam o processo de aprendizagem e enxergam possibilidades de resolver problemas e desafios escolares, mais se prepara para a vida. São pequenas percepções que podem gerar grandes mudanças em nossos alunos. Afinal, quanto mais aprendem, melhor.

Referências:

Brasil (2017). Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação

Jenkins, J.J. (1979). Four points to remember: A tetrahedral model of memory experiments. In L.S. Cermak and F.I.M. Craik (Eds.) Levels of processing in human memory. Hillsdale, N.J.: Erlbaum Associates, pp. 429–446.

Considerações sobre a experiência de continuidade pedagógica argentina e alguns contrapontos com a estratégia nacional brasileira (se é que ela existe)

O que pretendemos neste texto?

O debate sobre modelos de atuação pedagógica durante o Coronavirus tem colocado em xeque uma série de questões sobre a continuidade do ano letivo de 2020 frente ao cenário incerto. Neste sentido, a sociedade discute com bastante profundidade os riscos de desenhar estratégias baseadas na tecnologia e as dificuldades das famílias em manter ambientes pedagógicos favoráveis dentro de suas casas.

Em meio as várias pesquisas e estudos publicados mais recentemente, têm-se consolidado alguns modelos e processos de gestão baseado em experiências internacionais. Não vou aprofundar este debate neste post, mas já conseguimos enxergar alguns padrões de políticas dentro e fora do Brasil para atender a alguns desafios da educação durante a pandemia:

  • Estruturas tecnológicas para atuação do professor a partir da mediação tecnológica;
  • Ações e políticas para garantia da segurança alimentar dos alunos no período de suspensão de aulas;
  • Estratégias para atendimento aos alunos que não possuem acesso às tecnologias;

Ter um padrão de estratégias não significa que a situação está resolvida. Muitas variáveis diretas e indiretas devem ser consideradas para mensurar se a estratégia pedagógica terá o alcance esperado. Além do mais, o tempo tem mostrado que os cardápios de atividades online ou apostilas impressas não vão resolver o problema da aprendizagem. Na essência ela depende da escola e do professor.

Precisamos de mais tempo para verificar os limites deste modelo. Nada melhor do que uma situação de exceção para nos trazer evidências e um panorama fiel (e muitas vezes cruel) do resultado das ações remotas e o lugar que ocupam no processo de ensino-aprendizagem. Retornaremos a alguns desses pontos em postagens futuras.

O objetivo deste breve post é debater alguns pontos relevantes do contexto educacional e o papel que o Ministério da Educação tem ocupado no cenário nacional para atuar neste cenário de crise.

Para atender este objetivo, as próximas linhas estão organizadas em dois blocos: o primeiro (mais curto) traz uma descrição breve do modelo de continuidade pedagógica da Argentina, que servirá de contexto para o bloco seguinte.

Numa perspectiva comparativa, escrevemos no bloco faremos algumas reflexões a partir do programa nacional argentino, atuação do MEC em relação aos Estados e Municípios e a oportunidade perdida pela União para liderar uma grande frente nacional contra o Coronavirus.

Modelo de Continuidade Pedagógica da Argentina: Seguimos Educando

Trata-se do Programa Seguimos Educando, um sistema multiplataforma para oportunizar a continuação do processo de aprendizado dos alunos em todo o país, com recomendações em todos os níveis educacionais durante o período da quarentena.

Vamos resumir em tópicos algumas das características e informações mais relevantes sobre o modelo argentino, com base na Resolución 106/2020, de 15 de março de 2020, que estrutura o programa. Segundo este documento, os objetivos do Seguimos Educando são:

  • Colaborar com as condições para a continuidade das atividades docente no Sistema Nacional de Educação.
  • Assegurar a distribuição dos recursos e/ou materiais incluídos no Programa.
  • Desenvolver materiais e/ou recursos de acordo com os Núcleos de Aprendizagem Prioritários correspondentes a cada nível.
  • Desenvolver e disseminar materiais culturais e/ou recursos para uso familiar e/ou comunitário.

Vamos tratar de três ações mais estruturantes da política.  

A primeira é o lançamento da plataforma on-line chamada Seguimos Educando (www.seguimoseducando.gob.ar). Responsiva e desenvolvida seguindo critérios de acessibilidade e usabilidade, com recursos de autoaprendizagem, sugestões para famílias e professores, filmes, entrevistas, propostas de ensino e comunicação através de redes sociais e ferramentas de videoconferência, propostas de tempo livre e programação de eventos online.

Segundo o jornal El Agora Digital, devido a uma parceria com as operadoras de telefonia móvel, o acesso e o download aos dados da plataforma não consumirá dados de planos, assim o acesso terá menos restrições do que o habitual.

A segunda ação é a produção e transmissão de programação audiovisual através dos veículos de comunicação pública do país: Televisão Pública Argentina e seus repetidores, Encuentro, Paka Paka, DeporTV, Rádio Nacional e Cont.ar. Todos os programas são disponibilizados ao vivo e no portal do aluno (https://www.educ.ar/recursos/150936/seguimos-educando), divididos por nível educacional.

A terceira estratégia é a produção e distribuição de material impresso para comunidades educativas sem acesso à internet, priorizando as que se encontram em isolamento, áreas rurais e contextos de alta vulnerabilidade social. De acordo com o site La Nueva Mañana, o governo federal, em parceria com a UNICEF, produzirá cerca de quatro milhões de folhetos impressos para os estudantes sem condições de acesso ao conteúdo online.

Olhando para a resolução e as atividades propostas, não encontramos muitas diferenças em relação com o que se planeja e pratica em muitos países. No próprio Brasil, temos algumas experiências com muita sinergia com esta proposta.

Isso pode ser decorrente da circulação mundo afora de casos de sucesso e boas práticas em educação. Parte do crédito está no esforço de instituições do terceiro setor, ONGs, instituições de pesquisa nacionais e internacionais em disponibilizar estudos, relatórios e pesquisas.

Em tempos de lives e webinars, encontramos materiais muito interessantes. Alguns deles  já citamos nas referências da nossa postagem no blog sobre o modelo francês de continuidade pedagógica e outros que colocaremos ao final deste texto.  

Qual o lugar do Brasil no mundo? O que estamos fazendo ou deixando de fazer?

Gostaria de começar este bloco recuperando um pronunciamento do  Ministro da Educação  Nicolás Trotta no dia 8 deste mês em sua rede social, onde tratou de alguns temas muito caros ao cenário brasileiro e que precisamos discutir e aprofundar nos diferentes cenários que se desenham para ano letivo de 2020 (ou 2020/2021).  

Priorizamos três temas: os princípios da política de continuidade, o desafio do calendário escolar pós-COVID e o papel do Ministério da Educação

1. “Não é tempo de avaliar, e sim de aprender”

Muitas discussões nos sistemas de ensino públicos e privados giram em torno de uma pretensa produtividade e de altas expectativas de aprendizagem em relação as atividades pedagógicas domiciliares.

Ao tratar deste tema, Nicolás Trotta afirma que a mensuração de aprendizagem será realizada quando os estudantes retornarem às escolas. Neste sentido, os professores terão um papel importante de entender o quanto foi possível avançar no período de isolamento.

Será preciso pensar em estratégias de verificação da aprendizagem e de nivelamento dos alunos a partir do aprendizado esperado em seus níveis educacionais. A partir daí começa-se a escrever um importante capítulo da educação em tempos de pandemia. O que as escolas devem fazer quando os alunos voltarem a estudar presencialmente?

No Brasil, forma-se um consenso entre representantes de setores da educação pública como a UNDIME (União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação) e também do terceiro setor com relação a necessidade de entender o tamanho do déficit de aprendizagem pelos dias sem aulas.

Em um Webinar promovido pelo Movimento Todos pela Educação no início deste mês, com a participação do CNE, Priscila Cruz (Presidente do TPE), afirmou que uma das prioridades neste momento é evitar uma avalanche do abandono escolar no pós-COVID. Certamente teremos impactos ligados à proteção social e saúde de crianças e jovens, que vivem nos milhares de lares mais vulneráveis do nosso país.

2. “Certamente teremos que estabelecer um calendário em que o programa 2020 possa ser intensificado, e provavelmente teremos que fazê-lo em parte de 2021”

Um dos pontos mais difíceis nas discussões acerca da educação em tempos de pandemia, está relacionado ao fim do ano letivo de 2020. Considerando cenários mais críticos, como o de Nova York, onde as escolas ficarão fechadas até o término do ano letivo (Junho), e as projeções divergentes sobre  o avanço do Coronavirus, será difícil prever quando as escolas brasileiras retornarão às suas atividades normais.

O ministro argentino afirma que o retorno às aulas é uma questão de saúde pública e não cabe a ele definir quando acontecerá. Neste sentido, vale uma profunda reflexão sobre a necessidade de flexibilização da carga horária para equilibrar os efeitos da pandemia sobre a aprendizagem dos alunos neste ano letivo.

Trota disse ainda que aos alunos que estão em fechamento de ciclos terão acesso garantido. Mas em 2021, as escolas deverão estabelecer propostas pedagógicas que consolidem os conhecimentos esperados no ano anterior e os qualifiquem de fato para o próximo nível.

Pensando no Brasil, esta frase pode ser inspiradora para que pensemos em possibilidades mais disruptivas de garantir a transição para o próximo ano letivo. Renunciar à rigidez de dias ou horas para construir planos mais flexíveis de nivelamento pode ser um caminho trilhado para não retardar o avanço dos alunos.

Mesmo com as previsões para uma crise da aprendizagem com o retorno dos alunos às escolas, o MEC resolveu manter o calendário do ENEM inalterado. É um ponto a pensar:  isso não colocará estudantes de escolas públicas em situação desfavorável pela desigualdade de acesso ao conhecimento?

É perfeitamente compreensível que o governo federal fortaleça o discurso da permanência do ENEM no ano de 2020. Mas esta manutenção da prova dialoga com o calendário das redes estaduais de ensino? Considera que equipes técnicas estão fazendo projeções de reposição de aula e prevendo um acentuado prejuízo na aprendizagem dos estudantes das escolas públicas de Ensino Médio?

3. Qual o papel do Ministério da Educação na condução desta crise?

Neste quesito, o que chama atenção logo de cara é o envolvimento institucional do Ministério da Educação e do Ministro como peças chave para coordenar uma ação horizontal (intersetorial no âmbito federal) e vertical (em parceria com as províncias).

Escolhemos olhar para o Facebook do Ministério da Educação de três países (Brasil, Argentina e França) numa perspectiva comparativa para entender como o governo está se posicionando, bem como o tipo de mensagens que são colocadas no ar no período da COVID-19.

Seguem algumas informações:

  • A página oficial do MEC não faz nenhuma alusão a COVID 19. A foto oficial do perfil do Ministério francês traz a seguinte mensagem: “Salve as vidas que restam”. No portal argentino, a mensagem é “Argentina Unida”. No perfil brasileiro, a imagem inicial apresenta uma propaganda do Programa Tempo de Aprender, lançado recentemente pelo nosso governo federal;
  • Quando olhamos para as postagens realizadas, mais uma surpresa: entre os dias 06/04 e 14/04, temos apenas uma postagem diretamente relacionada ao COVID 19 no âmbito da Educação Básica (referente ao PNAE- Programa Nacional de Alimentação Escolar).
  • Os recordistas de postagens do MEC são o Programa Tempo de Aprender, FIES e o ENEM.  Ao visitar o perfil do ministério brasileiro temos a sensação de que o Coronavirus é uma mera gripe. Tudo normal;
  • Os ministérios da França e Argentina trazem postagens diárias com orientações para a comunidade escolar e demostram o envolvimento direto dos ministros em conversas diárias com os seguidores para tirar dúvidas, bem como na postagem de vídeos com direcionamento para as questões mais importantes que impactam no planejamento da continuidade pedagógica.

Para não ser totalmente injusto com o MEC, visitamos seu Twitter oficial, que traz um volume um pouco maior de informações. Mesmo assim servem muito pouco para orientação da continuidade pedagógica dos nossos estudantes da educação básica.

É possível considerar que o menor envolvimento do MEC no planejamento dos Estados e Municípios atende ao direito à autonomia dos sistemas de ensino nos diferentes níveis? Talvez sim.

No entanto, ao olhar para os dados de pesquisa sobre o planejamento e governança para enfrentar o desafio da pandemia, fica evidente a necessidade de uma aproximação dos territórios mais frágeis e com menos capacidade técnica.

O CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) lançou uma pesquisa no início deste mês sobre o planejamento das secretarias estaduais e municipais para oferecer aprendizagem remota aos seus estudantes durante o isolamento social. Para acessar a pesquisa, clique aqui.

Após a coleta de dados em 3.032 secretarias de educação de todo o Brasil, constatou-se que 2.520 secretarias municipais (84% dos respondentes) emitiram normativas específicas – a maior parte delas determinando a suspensão das aulas presenciais ou o adiantamento de férias ou recesso escolar. Porém, 63% ainda não orientaram as suas escolas sobre qual estratégia de ensino remoto deve ser adotada neste período.

Sobre as normativas (resoluções, pareceres, recomendações) produzidas pelos Estados e Municípios e seus Conselhos, vale citar que a maioria foi elaborada após o Conselho Nacional de Educação publicar uma nota de esclarecimento no dia 18 de Março de 2020 que autorizou a realização de atividades à distância nas diferentes modalidades de ensino da educação básica e superior (com exceção da Educação Infantil).

As duas semanas seguintes foram de muito trabalho para os Conselhos, que inspirados na normativa federal, puderem se respaldar para o início do planejamento. No entanto, a pesquisa aponta que a maioria das secretarias não conseguiu avançar no passo seguinte: o desenho de suas estratégias.

Na minha atividade como Consultor Educacional e nas conversas com gestores de vários locais do Brasil, percebi que são muitos fatores apontados para este atraso, mas o principal é a incerteza sobre o que fazer. Em outras palavras: a insegurança jurídica para agir num contexto completamente atípico onde não há uma resposta nas legislações vigentes. Os gestores precisam de orientações e parecem aguardar que isso venha do Governo Federal.

Talvez este seja o indicativo de que os secretários de educação (principalmente os mais de quatro mil secretários municipais) esperam mais orientações sobre como garantir segurança alimentar para alunos e famílias, o reposicionamento do calendário escolar de 2020 e principalmente, como apoiar as escolas a manter o vínculo com a enorme parcela de famílias vulneráveis a partir de educações remotas.

Podemos imaginar pelo menos uma dezena de possibilidades de apoio mais direto do Ministério da Educação aos demais entes federados, tais como:

  • Mais celeridade na elaboração de normativas que apoiem a tomada de decisão dos gestores com segurança jurídica;
  • Estar mais presente nos grandes debates sobre os rumos da educação brasileira em tempos de COVID;
  • Usar suas plataformas de comunicação para fortalecer a importância da educação em tempos de pandemia e a necessidade de engajamento da comunidade escolar neste processo;
  • Estabelecer em parceria com Consed (Conselho de Secretários de Estado da Educação) e UNDIME (União de Dirigentes Municipais de Educação) um Programa Nacional de Continuidade Pedagógica que se articule e fortaleça as estratégias estaduais e municipais;
  • Construir um plano de governança nacional para apoiar Estados e Municípios no planejamento de suas estratégias para continuidade pedagógica;
  • Realizar a curadoria e organizar plataformas com objetos digitais de aprendizagem para diferentes níveis, anos e modalidades;
  • Facilitar o acesso à tecnologia a partir de parcerias público-privadas (compra de chips com pacote de dados os alunos e famílias, aquisição de equipamentos tecnológicos as para famílias e professores, subsídio junto às operadoras de telefonia para uso de redes WiFi abertas em áreas vulneráveis, etc);
  • Estabelecer parcerias com Universidades (Públicas e Privadas), Terceiro Setor, ONG´s e empresários para desenvolver soluções que garantam alcance e profundidade aos planos de continuidade pedagógica. Priorizando os municípios com maiores dificuldades financeiras e com capacidade técnica reduzida;
  • Realizar planos de formação em massa, usando a plataforma AVAMEC, para qualificar gestores, professores, alunos e famílias sobre a aprendizagem remota e o uso das TIC´s;
  • Elaboração de materiais pedagógicos de apoio alinhados à BNCC para as Secretarias de Educação com menor capacidade técnica e financeira.

Essas ações não foram inventadas. Estão no planejamento estratégico de vários governos estrangeiros para apoiar a continuidade educacional em seus sistemas de ensino. Vale a nota de que o Brasil, diferente de países como a China, França, Butão, Antigua e Barbuda, Venezuela, Colômbia, Argentina, Nova Zelândia e muitos outros, não apresentou um planejamento estratégico público para a questão da educação em tempos de COVID-19.

Existe uma plataforma da UNESCO chamada Planipolis, que funciona como um importante repositório de políticas educacionais, estruturas-chave da educação e relatórios de monitoramento de vários países.  Ela fornece um ponto de entrada único para os recursos oficiais de educação para os formuladores de políticas nacionais, doadores e parceiros para atender aos desafios do Coronavirus.

A busca mais atualizada neste portal mostra 47 documentos oficiais que tratam sobre o tema. A maioria deles apresenta normativas nacionais e planejamentos ministeriais para lidar com a educação remota. Ao fazer a busca de documentos brasileiros, é perceptível a ausência de um documento oficial que embase as nossas estratégias de forma consistente. Não é possível acha-lo também no site do MEC ou do governo federal brasileiro.

Após a busca no no Planipolis  encontramos: a recente Medida Provisória nº 934 (dispõe sobre as normas excepcionais sobre o ano letivo), a Lei nº 13.987 (dispõe sobre a distribução de gêneros alimentícios pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e uma lista de ações que o Ministério já realizou no contexto da pandemia. Nada que se pareça com um planejamento estratégico.

No entanto, vale ressaltar que foi criado no âmbito do Ministério um Comitê Operativo de Emergência, que articula o MEC, o FNDE, UNDIME, Consed e outras entidades na elaboração de medidas para de combate à disseminação do novo Coronavírus em instituições de ensino básico e superior, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde.  

Este comitê foi instituído pela Portaria 329 de 11 de Março de 2020, publicado no Diário da União. Ele pode ser um caminho institucional interessante para promover a integração sistêmica entre os entes federados. Mas considerando que ele existe a mais de 30 dias e as vozes de dissonância são muito altas entre União, Estados e Municípios, é possível que esta estratégia não tenha surtido até o momento o efeito esperado.

A falta de protagonismo do Ministério da Educação, a falta de sinergia na estrutura vertical de poder, bem como o aparente interesse em pautas desconectadas com as necessidades mais urgentes dos gestores públicos estaduais e municipais cria um hiato de poder importante no debate nacional.

Quem ganha com esse vácuo de poder? A sociedade civil e as organizações do terceiro setor. Eles promovem espaços virtuais de debate com especialistas e gestores públicos para entender e buscar soluções para os grandes desafios que enfrentamos na educação atual.

Organizações como a Fundação Lemann, o Movimento Todos pela Educação, o Instituto Unibanco e vários outros parceiros têm planejado uma série de possibilidades para garantir que as escolas possam oferecer recursos educacionais para seus alunos e que os gestores públicos possam tomar decisões baseadas em evidências e boas práticas. Vou deixar nas referências alguns links para gravações de algumas dessas agendas públicas.

Mas vale a pena ligar um filtro e fazer uma curadoria. Encontramos nas nossas redes sociais e e-mails uma enxurrada de convites para lives e webinars (algumas muito boas, outras nem tanto assim), bem como uma série de guias de ferramentas virtuais que prometem transformar nossas casas em poderosas salas de aula.

Na mesma direção do terceiro setor, temos um grande esforço das Secretarias Estaduais e Municipais, representadas pelo Consed e Undime, de capitanear apoio técnico e recursos humanos para desenvolver suas próprias soluções, mesmo na ausência de orientações e diretrizes mais específicas do Ministério da Educação.

O Conselho Nacional de Educação está desempenhando um importante papel de participar dos espaços de debate, trazendo orientações e sugestões que qualifiquem as diretrizes do MEC, que ainda estão muito aquém das expectativas dos secretários de educação e suas equipes técnicas.

Mesmo com o protagonismo dessas instituições, o papel da União é fundamental para garantir coerência em políticas estruturantes de apoio a aprendizagem. A verdade é que este trabalho não pode ser realizado por outros atores com o mesmo alcance. Em suma, ninguém pode substituir o Ministério da Educação.

Considerações finais:

Nunca precisamos tanto de consensos na educação brasileira como agora. Nos últimos anos enfrentamos debates importantes: Plano Nacional de Educação, Base Nacional Comum, Base Nacional de Formação Docente, ENEM e o FUNDEB. Esses temas reposicionaram os diferentes atores públicos e privados a partir de diferentes visões. Mas a pandemia nos deu uma chance ímpar de criar uma frente mais compacta para fortalecer a educação brasileira.

Estamos perdendo a oportunidade de colocar em prática o Regime de Colaboração, construindo estratégias pedagógicas e de gestão amarradas pela Base Nacional Comum Curricular. Ter uma espinha dorsal dos currículos construídos pelas redes públicas e privadas (com esforço e muito recurso do próprio MEC) daria ao MEC a oportunidade de construir estratégias de alcance nacional: ferramentas digitais, materiais pedagógicos, programas de formação e de comunicação com foco nas aprendizagens essenciais para todos os estudantes do país.

O melhor dos mundos seria um meio termo entre os interesses políticos em nosso país. Mas ao analisar o cenário que vivemos, com profundas divisões ideológicas, parece que estamos distantes de um pacto nacional pela educação brasileira e a mercê de todos os malefícios agregados à paralização das escolas.

Por mais que experimentemos um momento de amplas trocas entre Estados e municípios e uma consistente organização de grupos do Terceiro Setor para apoiar as escolas públicas, não ter o MEC no mesmo time faz falta e aumenta a sensação de descontrole.

O isolamento do Ministério da Educação frente a uma coalização (Estados, Municípios, Terceiro Setor e a Frente Parlamentar pela Educação) terá consequências que ainda não conseguimos mensurar. Vamos esperar e torcer para que este cenário mude.

Referências:

Plataforma de Continuidade Pedagógica da Argentina (Seguimos Educando): https://www.educ.ar/recursos/150936/seguimos-educando

La Nueva Mañana . 07 de Abril de 2020. Producirán cuadernillos para estudiantes en situación de vulnerabilidade.  https://lmdiario.com.ar/contenido/214079/produciran-cuadernillos-para-estudiantes-en-situacion-de-vulnerabilidad

Discurso do Ministro Nicolas Trotta no Facebook:  https://www.facebook.com/trottanico/videos/528461617853780/

Guia de estratégias de aprendizagem remota do CIEB: http://cieb.net.br/wp-content/uploads/2020/04/CIEB-Planejamento-Secretarias-de-Educacão-para-Ensino-Remoto-030420.pdf

Plataforma de planejamento e Políticas Públicas da UNESCO: https://planipolis.iiep.unesco.org/en

Ações do Governo Brasileiro de enfrentamento ao COVID 19 no âmbito da educação: http://portal.mec.gov.br/component/content/index.php?option=com_content&view=article&id=86791%3Acoronavirus-saiba-quais-medidas-o-mec-ja-realizou-ou-estao-em-andamento&catid=12&Itemid=86

Portaria de Regulamentação do Comitê Operativo de Emergência do Ministério da Educação: http://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-n-329-de-11-de-marco-de-2020-247539570?inheritRedirect=true&redirect=%2Fweb%2Fguest%2Fsearch%3FqSearch%3DComit%25C3%25AA%2520Operativo%2520de%2520Emerg%25C3%25AAncia

Resolución 106/2020, de 15 de março de 2020 – Institui o Programa Seguimos Educando: https://planipolis.iiep.unesco.org/en/2020/argentina-resoluciones-108-2020-suspensi%C3%B3n-de-clases-y-106-2020-programa-seguimos-educando-6888

UNESCO. Three ways to plan for equity during the coronavirus school closures – Disponível em http://www.iiep.unesco.org/en/three-ways-plan-equity-during-coronavirus-school-closures-13365

Organização Mundial da Saúde/Unicef/FICR – Mensajes y acciones importantes para la prevención y el control del COVID-19 en las escuelas – https://www.unicef.org/media/65851/file/Key%20Messages%20and%20Actions%20for%20COVID-19%20Prevention%20and%20Control%20in%20Schools_Spanish.pdf

UNESCO –  How are countries addressing the Covid-19 challenges in education? A snapshot of policy measures – https://gemreportunesco.wordpress.com/2020/03/24/how-are-countries-addressing-the-covid-19-challenges-in-education-a-snapshot-of-policy-measures/

World Bank Group Education – POLÍTICAS EDUCACIONAIS NA PANDEMIA DO COVID-19: O QUE O BRASIL PODE APRENDER COM O RESTO DO MUNDO? – https://institutoayrtonsenna.org.br/content/dam/institutoayrtonsenna/hub-socioemocional/politicas-educacionais-na-pandemia-do-covid-19.pdf

UNESCO. Three ways to plan for equity during the coronavirus school closures – Disponível em http://www.iiep.unesco.org/en/three-ways-plan-equity-during-coronavirus-school-closures-13365

Indicação de leitura sobre o COVID-19: Blog da Claudia Santa Rosa

Em tempos de COVID-19 estamos sempre buscando leituras interessantes que reflitam a realidade do que está acontecendo nas escolas brasileiras em tempos de pandemia e isolamento social.

Em meio a uma dessas pesquisas me deparei com um ótimo texto do site da Claudia Santa Rosa, intitulado “Por que não a TV, o rádio e a internet para fazerem a escola continuar?”, que pode ser lido na íntegra em seu site. Clique aqui para ter acesso.

Claudia Santa Rosa é educadora, fundadora do Instituto de Desenvolvimento da Educação em 2004, notabilizou-se em sua atuação como profissional na rede pública estadual e atuou como Secretária de Estado da Educação do Rio Grande do Norte dos anos de 2016 a 2018

Trata-se de um texto escrito a partir de uma experiência concreta, oriunda da sua atuação na como coordenadora pedagógica na Escola Estadual de Tempo Integral Dr. Manoel Dantas, em Natal-RN.

Os 135 alunos da escola de Ensino Fundamental, de 6 a 11 anos, foram divididos em grupos de WhatsApp para que pudessem participar de aulas virtuais, com o apoio dos responsáveis, que disponibilizam seus smartphones para que os estudantes possam acompanhar as atividades virtuais. A experiência foi noticiada no site da Tribuna do Norte.

Em seu blog, a educadora problematizou esta experiência num contexto de exclusão digital e trouxe a tona uma solução que têm sido adotada de forma intensa fora do Brasil, mas ainda muito timidamente por aqui: por que não utilizar os meios de comunicação em massa (TV e rádios) como meio de transmissão de conhecimento com um apoio às soluções focadas na internet? Não seria mais uma estratégia frente a situação de isolamento social?

A partir desta reflexão, convido vocês a acessarem o blog dela e leiam o texto.

Experiência de continuidade pedagógica francesa frente ao Coronavirus: A “Operação Nação Aprendiz”

Reflexões iniciais

O COVID-19 colocou grande parte do planeta em uma situação de exceção: quarentena, isolamento social, risco de desabastecimento, pânico nas redes sociais, projeções de quadros econômicos recessivos, etc.  Vários são os impactos destas situações na vida privada e coletiva. Nesta postagem, vamos olhar para a educação. Como ficam nossas escolas, professores e alunos neste contexto de crise mundial?

Em tempos de pandemia, novos desafios surgem no cenário educacional. Um deles é a suspensão de aulas no Brasil e o risco iminente do descumprimento da LDB (que prevê no art. 24 uma carga horária anual de 800 horas distribuídas em 200 dias letivos), que pode comprometer diretamente o aprendizado previsto pela BNCC e nos currículos locais em todos os anos da Educação Básica.

Nesse contexto de aulas suspensas em quase 100% das escolas públicas e privadas, algumas perguntas ficam no ar e suas respostas têm sido construídas pelo poder público no curto prazo:

– Como garantir a segurança da comunidade escolar em tempos de pandemia?

– Como podemos garantir a alimentação para alunos mais vulneráveis que dependem das refeições servidas na escola?

– Como garantir que o aprendizado dos alunos não será comprometido em cenários de suspensões mais longas (superiores a 30 dias letivos) que empurrem o final do ano letivo para 2021?

Em primeiro lugar, gostaria de trazer uma sugestão bem legal para monitorar as decisões e orientações propostas pelos Estados. Qualquer pessoa pode acessar a uma rica curadoria de informações do Instituto Aldeia.

Esta instituição está organizando dados a partir de fontes confiáveis e conteúdos relevantes para os profissionais da educação e demais pessoas envolvidas com o tema. Acreditamos que ter visibilidade de portais com credibilidade evita a disseminação de fake News e a histeria coletiva que estamos vivendo nas redes sociais.

O intuito deste artigo não é mergulhar nas reflexões, mas provocar os leitores que estão envolvidos nelas ocupando diferentes posições na área educacional. Isso porque as soluções propostas tem impacto direto em todos os atores sociais.

Como as ações de continuidade pedagógica em tempos de pandemia impactam nos professores? E os nossos alunos? Até mesmo os pais e responsáveis devem ser levados em consideração neste momento.

Ao nos colocar no lugar de cada um desses stakeholders, certamente teríamos que levar em consideração algumas perguntas básicas, porém desafiadoras:

– Em tempos de pandemia, como lidar de forma institucional com os períodos de suspensão de aulas? Estamos falando de excepcionalidade prevista em lei ou de férias antecipadas para os professores? Como evitar prejuízos à qualidade de vida dos professores?

– Como construir estratégias para reposição de aulas efetivas? Existem muitos questionamentos sobre a efetividade das aulas aos sábados e o uso de ferramentas virtuais para conectar professores e alunos em ambientes remotos.

– Como engajar os pais e responsáveis para que apoiem os estudos domiciliares dos seus filhos? Será que eles estão preparados para ajudar as crianças nessa nova rotina (nova para muitos dos pais, na verdade)? Deveríamos aproveitar este momento de crise para fortalecer o papel das famílias no acompanhamento da aprendizagem?

Para ajudar a responder essas perguntas é importante entender como outros países estão enfrentando o isolamento social e tentando manter seus sistemas educacionais funcionando de forma regular. Vamos sobrevoar a solução francesa, que dentre outras ações, estabeleceu uma grande ação chamada “Operação Nação Aprendiz”, que dá nome a este artigo.

Plano de Continuidade Pedagógica na França

A França é um dos países que apresenta o maior número de cidadãos contaminados pelo COVID-19. No momento em que escrevo este texto (23/03/2020), o rastreador da Microsoft COVID-CORONAVIRUS apontava um total de 19.856 casos confirmados no país.

O sistema de educação francês divide-se em três etapas: Escola Primária, Ensino Secundário e Ensino Superior. O sistema que corresponde a nossa educação básica (Ensino Primário e Secundário) atende mais de 12 milhões de alunos localizados em cerca de 61.900 escolas em todo o território nacional. Para mais detalhes sobre a educação francesa, acesse o link com o relatório estatístico produzido pela secretaria em 2019, que está nas referências ao final do texto.

No dia 28 de fevereiro deste ano (momento em que a França registrava apenas 38 casos confirmados) o boletim oficial da Educação Pública do Ministério da Educação Nacional e Juventude publicou a Circular n ° 2020-056 com as primeiras orientações aos gestores municipais com o intuito de garantir a continuidade pedagógica nas áreas de “risco” definidas pelo Ministro responsável pela Saúde.

A ideia era garantir o vínculo educacional entre professores e alunos, manter o conhecimento já adquirido pelos alunos e permitir a aquisição de novos conhecimentos no caso das escolas serem fechadas ou alunos ficarem impossibilitados de participar das atividades de forma presencial.

O primeiro passo foi garantir a continuidade pedagógica das atividades escolares, com alunos seguindo com seus estudos em casa, com apoio online (para alunos com acesso a internet) e offline (com suporte físico a partir de diferentes serviços públicos como o correio, as universidades e a própria gestão da escola).

Desde o dia 16 de Março, todas as escolas do país foram fechadas e os gestores, professores, pais e estudantes são orientados sobre como utilizar as ferramentas estruturadas pelo Ministério. Neste curto espaço de tempo, os franceses já registravam 6.633 casos confirmados do COVID-19 com 148 óbitos.

Nosso relato neste texto não é aferir valor à estratégia do Ministério da Educação, mas apresentar alguns aspectos referentes ao modelo de atuação. A despeito dos resultados que vão alcançar no final da pandemia, o planejamento estatal parece estar estruturado para garantir, dentre outros elementos:

  • o suporte digital para o desenvolvimento do currículo nacional a partir de trilhas formativas;
  • a garantia da atuação do professor como um facilitador do processo de aprendizagem virtual;
  • uma atuação intersetorial para facilitar a continuidade pedagógica em regime domiciliar;
  • um apoio efetivo às famílias dos estudantes.

São esses quatro pontos que eu gostaria de explorar, pois me chamaram atenção e podem ser o diferencial para o sucesso da estratégia nacional. Estruturamos os próximos tópicos da publicação de forma que eles possam ser visualizados da forma mais descritiva possível.

A plataforma “Minha classe em casa” e as trilhas formativas dos estudantes

O Ministério da Educação e Juventude da França disponibilizou para os estudantes das escolas primárias e secundárias uma plataforma chamada Ma classe à la Maison (Minha classe em casa). Este ambiente foi construído pelo CNED (Centro Nacional de Educação a Distância) com o objetivo de oferecer trilhas formativas para cobrir um período de quatro semanas nos diferentes níveis e etapas.

O material é organizado com o intuito de revisar os conhecimentos trabalhados no início do ano letivo de 2020 a partir de um conjunto de recursos: atividades on-line, sequências de atividades, sessões de treinamento, download de exercícios, livro de registro (diários de bordo), livros digitais, recursos em inglês e espanhol, e ilustrações de apoio.

Os materiais digitais são organizados por componente curricular, autoinstrucionais, interativos e com layout bastante atrativo para os estudantes. Na tela inicial da plataforma é possível fazer um download do resumo das atividades, organizadas por semana. Isso permite uma visualização bem completa de todas as trilhas educacionais para cada componente curricular do programa.

Uma das seções da plataforma, chamada de Livro Digital, permite o acesso aos conteúdos trabalhados em cada etapa da trilha formativa. A partir deste material, responsáveis podem conhecer os assuntos que o aluno trabalhou durante o primeiro trimestre, podendo optar por consultar um resumo desses e-books e trabalhar com ele os capítulos correspondentes.

Vale ressaltar que as plataformas educacionais do Ma classe à la Maison são abertas a todos os estudantes (que recebem um identificador para acessar) e qualquer pessoa que queira conhecê-las. Por isso tive a oportunidade de acessar alguns materiais da disciplina de Educação Moral e Cívica. Quem tiver interesse em explorar os recursos, acesse os seguintes endereços: Ecole.cned.fr (ensino primário) e Ecole.cned.fr (ensino secundário).

Segundo o CNED, o estabelecimento das trilhas formativas não visa substituir o professor, mas viabilizar a organização do atendimento online aos estudantes. As atividades de casa, as avaliações e correções das tarefas seguem a cargo dos seus professores.

Uma das principais atuações do professor, segundo as orientações do ministério está em lecionar nas salas virtuais da plataforma para complementar as práticas propostas pela trilha formativa. As aulas virtuais com o professor visam ainda diminuir o isolamento social dos alunos, mantendo uma dinâmica de grupo e contato regular com os seus professores. É a partir desta ferramenta que os docentes podem aconselhar os alunos em suas atividades e disponibilizar recursos educacionais adicionais, garantindo a sua progressão educacional no curso a distância.

A atuação do professor como facilitador das trilhas formativas

Em relação ao papel do professor neste processo, o Ministério da Educação estabeleceu uma série de protocolos para a sua atuação junto aos estudantes, de acordo com a etapa em que lecionam. As responsabilidades são definidas em pequenos documentos orientadores (disponíveis nas referências deste texto).

Dada a relevância destes materiais em meio a discussão que vivemos, cabe um detalhamento maior destas orientações, já que trazem de forma explícita o que é esperado dos professores no que tange o planejamento pedagógico, a execução das atividades e a interação com as famílias.  

De acordo com o protocolo, cabe aos professores do ensino primário:

1 – USAR RECURSOS PEDAGÓGICOS E DOCUMENTOS DE TRABALHO PARA ESTUDANTES

  • selecionar atividades adaptadas à situação excepcional e realizáveis ​​em um contexto familiar (de tipo de exercícios de reinvestimento)
  • Permitir que as sessões educacionais on-line da CNED sejam disponibilizadas no “Minha turma em casa ” e me treine para usar a sala de aula virtual
  • Consultar o site da DANE (Délégation académique au numérique éducatif ou Delegação Nacional para a Educação Digital, responsável pela implementação do Plano Digital de Educação na França, instituído em 2015. Saiba mais em http://www.dane.ac-versailles.fr/la-dane/qu-est-ce-que-la-dane/)

2 – ORGANIZAR TROCAS COM ESTUDANTES E FAMÍLIAS

  • Transmitir materiais e documentos de ensino pela solução eletrônica escolhida
  • Planejar atividades impressas para estudantes cujas famílias não têm conexão internet
  • Enviar instruções aos pais para regular as atividades diárias (horário e limitação de tempo da tela, especialmente para os mais jovens, monitoramento do progresso)
  • Informar às famílias o planejamento dos envios e, se necessário, o horário de abertura das aulas virtuais (dependendo das necessidades dos alunos e das escolhas feitas)

3 – IMPLEMENTAR AS AÇÕES DIDÁTICAS

  • Usar vários modos complementares de ensino a distância: mensagens, blog, espaços colaborativos, para manter um vínculo educacional tranquilizador com seus alunos
  • Trabalhar remotamente e conversar com os alunos regularmente
  • Manter-se informado da evolução da situação conversando com o diretor da escola

O documento orientador define as seguintes responsabilidades aos professores do segundo grau:

1 – DAR INFORMAÇÃO AOS ALUNOS

  • Garantir que os alunos saibam usar os recursos e aplicações específicas da disciplina.
  • Explique aos alunos os métodos escolhidos para trabalhar remotamente: uso do ORL, trabalhando de forma independente, usando a plataforma CNED.

2 – PREPARAR-SE

3 – ADAPTAR SEU ENSINO

  • Planejar sequências compatíveis com a educação a distância.
  • Refletir sobre o uso de aulas virtuais e sua articulação com o trabalho em autonomia do aluno.
  • Adaptar o trabalho exigido dos alunos nas trilhas formativas (produções escritas, etc.);

4 – ORGANIZAR TROCAS COM ESTUDANTES E FAMÍLIAS

  • Transmitir documentos educacionais e coletar produções dos alunos.
  • Transmitir instruções aos pais para regular a atividade diária.
  • Informar as famílias sobre o planejamento das remessas e, se aplicável, o cronograma de abertura das aulas virtuais.

Além dos protocolos de implementação, as orientações englobam tutoriais para apoiar os professores na criação das salas de aula virtuais no ambiente Ma classe à la Maison, bem como os tutoriais de utilização da plataforma (para alunos e professores), detalhando os recursos disponíveis para as sessões online.

Ação intersetorial para fortalecer a ação de continuidade pedagógica

Este ponto trata do esforço do Ministério em garantir que o maior número de recursos educacionais chegue aos estudantes. Essa estratégia extrapola a estrutura do próprio órgão. Nesse sentido citamos a ação que compõe o título deste artigo: Operation Nation Apprenante (ou Operação Nação Aprendiz, de acordo com o meu fraco conhecimento na língua francesa).

O governo francês lançou no dia 16 de Março, em parceria com alguns veículos de comunicação em massa (dentre eles os canais da France Télévisions e a programação da Radio France), uma ação para oferecer aos professores, alunos e suas famílias uma programação vinculada aos conteúdos escolares.  Todos os programas estarão acessíveis em podcast, streaming ou  reprodução nos sites do Ministério. O aplicativo Radio France oferece ainda uma seção que leva o nome do projeto, incluindo todo o conteúdo educacional de seus canais de forma gratuita.

Ao mesmo tempo, duas grandes plataformas de conteúdos em streaming (www.lumni.fr e https://educ.arte.tv/) disponibilizaram recursos educacionais para que os alunos possam aprender e concluir suas lições de casa. Na plataforma Lumni, os professores têm acesso a cerca de 3000 recursos digitais, indexados por nível e disciplinas do programa escolar para preparar, ilustrar ou estender seu curso e compartilhá-los com seus alunos.

Ultimo ponto: como apoiar as famílias neste processo?

Vamos abordar agora uma questão tratada no Brasil como o grande gargalo para a inserção de soluções EAD em sistemas públicos de educação. Como apoiar alunos e famílias que não tem acesso à internet de qualidade, computadores ou dispositivos smartphone para realizar as tarefas de forma remota?

Este é um desafio relevante que foi explorado recentemente em um material produzido pela organização da Sociedade Civil   Campanha Nacional pelo Direito à Educação, de atuação muito relevante pela melhoria da educação pública brasileira.

Em seu Guia COVID-19 Educação e Proteção de Crianças e Adolescentes (documento em dois volumes de leitura altamente recomendada), no segundo volume, dedicado aos tomadores de decisão do Poder Público, recomenda que as soluções EAD não sejam utilizadas como alternativa à flexibilização da carga horária nas escolas. E se for necessário aderir a esta modalidade, que seu uso seja restrito à plataformas de recursos abertos, oferecidos pelo MEC (que mantém a plataforma MEC Red) para garantir a privacidade dos dados dos estudantes.

O principal argumento é que as crianças e  adolescentes em maior situação de vulnerabilidade ficam ainda mais prejudicados com essa escolha, ampliando as desigualdades educacionais e sociais há existentes. O documento traz outros argumentos muito consistentes e a leitura deste material pode ser feita a partir do link no parágrafo anterior ou nas referências deste artigo.

Voltando para o plano de continuidade pedagógica proposto pelo governo francês, parte das orientações está voltada aos responsáveis, inclusive para os que se encontram em situação de “vulnerabilidade tecnológica”.

Para os pais e responsáveis que possuem internet, recomenda-se que:

  • Consultar regularmente os sites da academia para  ler informações importantes;
  • Buscar  instruções da equipe de ensino para que o aluno realize atividades escolares, necessárias para reativar lições anteriores ou abordar novos capítulos;
  • Abrir uma conta para o aluno na plataforma CNED “Minha turma em casa” e apoiá-lo a começar com esta ferramenta.  
  • Acessar os recursos que estão online no site do departamento departamental de educação nacional (DSDEN) ou no site acadêmico.

 Para aqueles sem conexão com a internet, recomenda-se que:

  • Entrar em contato com o diretor da escola para obter os apoios das atividades desenvolvidas que permitirão que meu filho consolide suas habilidades;
  • Buscar  as instruções e os vários apoios, por correio ou pela prefeitura, que receberá os documentos e os deixarão a disposição;
  • Encorajar os alunos a ler, escrever e contar.

Além das orientações apresentadas nos protocolos acima, o Ministério da Educação estabeleceu em todas as cidades, desde o dia 16 de março, pontos de apoio para comunicação às famílias sobre o plano de continuidade pedagógica. O atendimento é feito via telefone e email por  equipes designadas pelo governo para realizar este suporte.

Conclusão

Não foi a intenção desta postagem realizar uma análise com foco nas projeções de êxito das ações educacionais do sistema educacional francês, frente ao desafio da pandemia na Europa. Não será fácil mensurar os impactos do isolamento social prolongado nos níveis de engajamento dos alunos e das famílias, tampouco avaliar a eficácia das ações num contexto que pode ser impactado ainda por questões políticas, sociais, ambientais ou econômicas, caso o período de contaminação do COVID-19 se prolongue para além do esperado.

O objetivo deste texto foi simplesmente descrever esta experiência, que assim como a brasileira, está em construção. Talvez possamos avaliar o quanto essas ações podem inspirar nossas redes estaduais ou municipais a construir soluções semelhantes, com as adaptações necessárias. Por isso, vou tentar sistematizar alguns insights que surgiram a luz das leituras e da produção deste texto :

  • O programa de continuidade pedagógica dos franceses visa inicialmente fortalecer aprendizagens já consolidadas nas escolas, mediadas pelo uso de ferramentas tecnológicas. Vale a pena entender como a estratégia será redefinida se for necessário estender este prazo;
  • As trilhas formativas apresentadas aos alunos estão focadas no currículo nacional e na progressão das aprendizagens de forma personalizada, com a mediação dos professores nas salas de aula virtuais;
  • Vale a pena mergulhar nas atividades das plataformas e avaliar se não apenas “repositórios” das trilhas formativas ou realizam outros tipos de mediação;
  • O papel dos professores é definido por protocolos de ação. Cabe aos docentes apoiar    os alunos no desenvolvimento das atividades propostas nas trilhas formativas para que possam progredir ao final das quatro semanas. Neste caso é importante avaliar os ganhos e perdas deste processo, considerando o contexto emergencial e a capacidade das escolas de construir trilhas e estabelecer referências personalizadas de progressão dos seus alunos em um curto espaço de tempo;
  • É importante mensurar e avaliar o papel dos canais de tv aberta, rádio, streaming, podcasts e outras ferramentas no processo pedagógico do plano de continuidade francês. No Brasil, essa prática não parece ser apoiada pelo atual governo federal. No entanto, dada a amplitude dos canais de comunicação mobilizados é interessante ficar de olho nos resultados;
  • É importante acompanhar o impacto da massificação dos conteúdos educacionais na TV, rádio e internet nos níveis de engajamento dos alunos e responsáveis ao longo do tempo. Principalmente se o período de isolamento social se estender mais que o necessário;
  • Há uma aparente preocupação em apoiar as famílias para que os alunos possam realizar as atividades em casa. Este apoio foi planejado considerando as desigualdades educacionais, com suporte telefônico, possibilidade de receber as atividades pelo correio e contatar os gestores e professores ao longo da trilha formativa.

Que esta breve descrição do modelo francês e as reflexões finais possam, de alguma forma, inspirar tomadores de decisão, gestores e professores a encontrar as melhores soluções para o momento ímpar que vivemos na educação brasileira.

Não esqueça de deixar seus comentários.

Referências

Link de acesso à plataforma virtual – Minha Classe em Casa – Ensino Primário – https://ecole.cned.fr  

Link de acesso à plataforma virtual – Minha Classe em Casa – Ensino Secundário – https://ecole.cned.fr  

Plano de Continuidade educacional – Protocolo de responsabilidades para professores de 1º grau

Plano de continuidade educacional – Protocolo de responsabilidades para professores de 2º grau

Guia COVID-19 Educação e Proteção de Crianças e Adolescentes –  Campanha nacional pelo Direito a Educação – Volumes 1 e 2

Página com as informações sobre o Plano de Continuidade educacional da França https://www.education.gouv.fr/coronavirus-covid-19-informations-et-recommandations-pour-les-etablissements-scolaires-et-les-274253

Orientações para o uso da plataforma  Minha Classe em Casa – https://www.education.gouv.fr/ma-classe-la-maison-mise-en-oeuvre-de-la-continuite-pedagogique-289680

Lista para consulta das transmissões de programas da Operação Nação Aprendiz – https://eduscol.education.fr/cid150496/operation-nation-apprenante.html  

Dados estatísticos sobre a educação francesa 2019 – https://www.education.gouv.fr/sites/default/files/2020-02/depp-enc-2019-pdf-43448.pdf

A BNCC e os novos currículos: responsabilidade de quem?

A implementação da Base Nacional Comum Curricular segue neste ano de 2020. Em consonância com a Resolução 02/2017 do Conselho Nacional de Educação, este é o ano em que os novos currículos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, alinhados a esta normativa, chegam as salas de aula.

Será um desafio enorme, que afetará diretamente o trabalho dos professores e dos estudantes das redes estaduais e municipais de todo o Brasil. Por isso é importante que haja o envolvimento de todos os atores chave deste processo para garantir que as mudanças propostas pela Base e refletidas no documento sejam de fato implementadas.

Para saber um pouco mais sobre as principais mudanças e o que se espera dos Secretários de Educação, lideranças escolares e professores, acesse o artigo que escrevemos em parceria com a ex-presidente da UNDIME Cleusa Repulho para o site da Consultoria Elos Educacional. O artigo se chama 2020: O ponto de partida para os novos currículos nas salas de aula e está disponível neste link .

Em breve traremos vários artigos relacionados à Base Nacional Comum Curricular para que possamos fazer reflexões importantes sobre os impactos deste documento nas escolas de todo o Brasil.

A educação é um desafio para todos nós. Por isso estamos aqui!

A educação é sem dúvida um dos maiores desafios para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Provavelmente, se buscarmos referências com profissionais que atuaram nos últimos 30, 40 ou 50 anos, vamos nos deparar com paradigmas bem específicos, e também com questões que ultrapassaram décadas e que se colocam como verdadeiros gargalos históricos para que possamos garantir qualidade para a aprendizagem das gerações de alunos.

Questões de acesso, permanência dos alunos na escola, a qualidade das aulas, a infraestrutura, as estratégias de apoio aos professores, a gestão escolar, o financiamento público… São inúmeros os temas e pessoas que se debruçam nestes temas afim de criar soluções que possam impactar positivamente neste universo educacional.

Neste contexto de múltiplos desafios e por conta da experiência acumulada em quase 20 anos na educação, criamos a Consultoria Eduque Brasil em 2017. Nosso objetivo é apoiar redes públicas e escolas privadas no fortalecimento de processos pedagógicos a partir da análise de projetos, programas e políticas públicas e da co-construção de iniciativas que fortaleçam a aprendizagem dos alunos e melhore os indicadores educacionais.

João Paulo Cêpa (fundador da consultoria e este que vos escreve) é graduado em História(UGF-RJ), Especialista em História do Brasil (UCAM-RJ) e Mestre em História Social (UFRJ). Atua há 15 anos na educação, ocupando várias funções na área:

  • Professor e Diretor Escolar em escolas das redes públicas e privadas no Rio de Janeiro e Espírito Santo 
  • Funções de liderança na gestão pública (técnico educacional e Assessor Especial de Currículo na SEDU-ES )
  • Docência no Ensino Superior (Professor Substituto de Estágio Supervisionado em História na Universidade Federal do Espírito Santo e Professor em Cursos de Pós-Graduação (Faculdade do Noroeste de Minas-FINOM e Instituto Brasileiro de Educação – IBE).

De 2015 a 2018 coordenei o processo de implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no Estado do Espírito Santo. Desde 2017 atuo junto com a Fundação Lemann como Consultor Especialista na implementação da BNCC, em Currículo e Planejamento de Aula em 25 secretarias municipais e estaduais do Brasil do Programa Formar: Redes que Transformam a Educação. Desde 2018, pude apoiar a elaboração dos documentos curriculares alinhados à Base Nacional nas etapas da educação infantil e ensino fundamental.

Ao mesmo tempo, atuamos na implementação de políticas públicas em temas como formação de professores, avaliação, acompanhamento pedagógico, observação de sala de aula e planejamento de metas e ações. Divulgaremos neste blog oficinas e ações formativas que ajudem o planejamento do dia a dia da gestão pedagógica, mesclando teoria e prática, com ferramentas antenadas com os principais desafios que diretores, coordenadores pedagógicos e professores enfrentam no seu dia a dia.

Acreditamos na circulação de conhecimentos nas secretarias de educação, nas escolas e em todos os espaços que valorizam este tema. Este é um dos caminhos para a superação de muitos desafios que temos pela frente. Precisamos atravessar a barreira do senso comum e trabalhar com evidências científicas para transformar a educação brasileira.

Conte conosco.

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora