Considerações sobre a experiência de continuidade pedagógica argentina e alguns contrapontos com a estratégia nacional brasileira (se é que ela existe)

O que pretendemos neste texto?

O debate sobre modelos de atuação pedagógica durante o Coronavirus tem colocado em xeque uma série de questões sobre a continuidade do ano letivo de 2020 frente ao cenário incerto. Neste sentido, a sociedade discute com bastante profundidade os riscos de desenhar estratégias baseadas na tecnologia e as dificuldades das famílias em manter ambientes pedagógicos favoráveis dentro de suas casas.

Em meio as várias pesquisas e estudos publicados mais recentemente, têm-se consolidado alguns modelos e processos de gestão baseado em experiências internacionais. Não vou aprofundar este debate neste post, mas já conseguimos enxergar alguns padrões de políticas dentro e fora do Brasil para atender a alguns desafios da educação durante a pandemia:

  • Estruturas tecnológicas para atuação do professor a partir da mediação tecnológica;
  • Ações e políticas para garantia da segurança alimentar dos alunos no período de suspensão de aulas;
  • Estratégias para atendimento aos alunos que não possuem acesso às tecnologias;

Ter um padrão de estratégias não significa que a situação está resolvida. Muitas variáveis diretas e indiretas devem ser consideradas para mensurar se a estratégia pedagógica terá o alcance esperado. Além do mais, o tempo tem mostrado que os cardápios de atividades online ou apostilas impressas não vão resolver o problema da aprendizagem. Na essência ela depende da escola e do professor.

Precisamos de mais tempo para verificar os limites deste modelo. Nada melhor do que uma situação de exceção para nos trazer evidências e um panorama fiel (e muitas vezes cruel) do resultado das ações remotas e o lugar que ocupam no processo de ensino-aprendizagem. Retornaremos a alguns desses pontos em postagens futuras.

O objetivo deste breve post é debater alguns pontos relevantes do contexto educacional e o papel que o Ministério da Educação tem ocupado no cenário nacional para atuar neste cenário de crise.

Para atender este objetivo, as próximas linhas estão organizadas em dois blocos: o primeiro (mais curto) traz uma descrição breve do modelo de continuidade pedagógica da Argentina, que servirá de contexto para o bloco seguinte.

Numa perspectiva comparativa, escrevemos no bloco faremos algumas reflexões a partir do programa nacional argentino, atuação do MEC em relação aos Estados e Municípios e a oportunidade perdida pela União para liderar uma grande frente nacional contra o Coronavirus.

Modelo de Continuidade Pedagógica da Argentina: Seguimos Educando

Trata-se do Programa Seguimos Educando, um sistema multiplataforma para oportunizar a continuação do processo de aprendizado dos alunos em todo o país, com recomendações em todos os níveis educacionais durante o período da quarentena.

Vamos resumir em tópicos algumas das características e informações mais relevantes sobre o modelo argentino, com base na Resolución 106/2020, de 15 de março de 2020, que estrutura o programa. Segundo este documento, os objetivos do Seguimos Educando são:

  • Colaborar com as condições para a continuidade das atividades docente no Sistema Nacional de Educação.
  • Assegurar a distribuição dos recursos e/ou materiais incluídos no Programa.
  • Desenvolver materiais e/ou recursos de acordo com os Núcleos de Aprendizagem Prioritários correspondentes a cada nível.
  • Desenvolver e disseminar materiais culturais e/ou recursos para uso familiar e/ou comunitário.

Vamos tratar de três ações mais estruturantes da política.  

A primeira é o lançamento da plataforma on-line chamada Seguimos Educando (www.seguimoseducando.gob.ar). Responsiva e desenvolvida seguindo critérios de acessibilidade e usabilidade, com recursos de autoaprendizagem, sugestões para famílias e professores, filmes, entrevistas, propostas de ensino e comunicação através de redes sociais e ferramentas de videoconferência, propostas de tempo livre e programação de eventos online.

Segundo o jornal El Agora Digital, devido a uma parceria com as operadoras de telefonia móvel, o acesso e o download aos dados da plataforma não consumirá dados de planos, assim o acesso terá menos restrições do que o habitual.

A segunda ação é a produção e transmissão de programação audiovisual através dos veículos de comunicação pública do país: Televisão Pública Argentina e seus repetidores, Encuentro, Paka Paka, DeporTV, Rádio Nacional e Cont.ar. Todos os programas são disponibilizados ao vivo e no portal do aluno (https://www.educ.ar/recursos/150936/seguimos-educando), divididos por nível educacional.

A terceira estratégia é a produção e distribuição de material impresso para comunidades educativas sem acesso à internet, priorizando as que se encontram em isolamento, áreas rurais e contextos de alta vulnerabilidade social. De acordo com o site La Nueva Mañana, o governo federal, em parceria com a UNICEF, produzirá cerca de quatro milhões de folhetos impressos para os estudantes sem condições de acesso ao conteúdo online.

Olhando para a resolução e as atividades propostas, não encontramos muitas diferenças em relação com o que se planeja e pratica em muitos países. No próprio Brasil, temos algumas experiências com muita sinergia com esta proposta.

Isso pode ser decorrente da circulação mundo afora de casos de sucesso e boas práticas em educação. Parte do crédito está no esforço de instituições do terceiro setor, ONGs, instituições de pesquisa nacionais e internacionais em disponibilizar estudos, relatórios e pesquisas.

Em tempos de lives e webinars, encontramos materiais muito interessantes. Alguns deles  já citamos nas referências da nossa postagem no blog sobre o modelo francês de continuidade pedagógica e outros que colocaremos ao final deste texto.  

Qual o lugar do Brasil no mundo? O que estamos fazendo ou deixando de fazer?

Gostaria de começar este bloco recuperando um pronunciamento do  Ministro da Educação  Nicolás Trotta no dia 8 deste mês em sua rede social, onde tratou de alguns temas muito caros ao cenário brasileiro e que precisamos discutir e aprofundar nos diferentes cenários que se desenham para ano letivo de 2020 (ou 2020/2021).  

Priorizamos três temas: os princípios da política de continuidade, o desafio do calendário escolar pós-COVID e o papel do Ministério da Educação

1. “Não é tempo de avaliar, e sim de aprender”

Muitas discussões nos sistemas de ensino públicos e privados giram em torno de uma pretensa produtividade e de altas expectativas de aprendizagem em relação as atividades pedagógicas domiciliares.

Ao tratar deste tema, Nicolás Trotta afirma que a mensuração de aprendizagem será realizada quando os estudantes retornarem às escolas. Neste sentido, os professores terão um papel importante de entender o quanto foi possível avançar no período de isolamento.

Será preciso pensar em estratégias de verificação da aprendizagem e de nivelamento dos alunos a partir do aprendizado esperado em seus níveis educacionais. A partir daí começa-se a escrever um importante capítulo da educação em tempos de pandemia. O que as escolas devem fazer quando os alunos voltarem a estudar presencialmente?

No Brasil, forma-se um consenso entre representantes de setores da educação pública como a UNDIME (União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação) e também do terceiro setor com relação a necessidade de entender o tamanho do déficit de aprendizagem pelos dias sem aulas.

Em um Webinar promovido pelo Movimento Todos pela Educação no início deste mês, com a participação do CNE, Priscila Cruz (Presidente do TPE), afirmou que uma das prioridades neste momento é evitar uma avalanche do abandono escolar no pós-COVID. Certamente teremos impactos ligados à proteção social e saúde de crianças e jovens, que vivem nos milhares de lares mais vulneráveis do nosso país.

2. “Certamente teremos que estabelecer um calendário em que o programa 2020 possa ser intensificado, e provavelmente teremos que fazê-lo em parte de 2021”

Um dos pontos mais difíceis nas discussões acerca da educação em tempos de pandemia, está relacionado ao fim do ano letivo de 2020. Considerando cenários mais críticos, como o de Nova York, onde as escolas ficarão fechadas até o término do ano letivo (Junho), e as projeções divergentes sobre  o avanço do Coronavirus, será difícil prever quando as escolas brasileiras retornarão às suas atividades normais.

O ministro argentino afirma que o retorno às aulas é uma questão de saúde pública e não cabe a ele definir quando acontecerá. Neste sentido, vale uma profunda reflexão sobre a necessidade de flexibilização da carga horária para equilibrar os efeitos da pandemia sobre a aprendizagem dos alunos neste ano letivo.

Trota disse ainda que aos alunos que estão em fechamento de ciclos terão acesso garantido. Mas em 2021, as escolas deverão estabelecer propostas pedagógicas que consolidem os conhecimentos esperados no ano anterior e os qualifiquem de fato para o próximo nível.

Pensando no Brasil, esta frase pode ser inspiradora para que pensemos em possibilidades mais disruptivas de garantir a transição para o próximo ano letivo. Renunciar à rigidez de dias ou horas para construir planos mais flexíveis de nivelamento pode ser um caminho trilhado para não retardar o avanço dos alunos.

Mesmo com as previsões para uma crise da aprendizagem com o retorno dos alunos às escolas, o MEC resolveu manter o calendário do ENEM inalterado. É um ponto a pensar:  isso não colocará estudantes de escolas públicas em situação desfavorável pela desigualdade de acesso ao conhecimento?

É perfeitamente compreensível que o governo federal fortaleça o discurso da permanência do ENEM no ano de 2020. Mas esta manutenção da prova dialoga com o calendário das redes estaduais de ensino? Considera que equipes técnicas estão fazendo projeções de reposição de aula e prevendo um acentuado prejuízo na aprendizagem dos estudantes das escolas públicas de Ensino Médio?

3. Qual o papel do Ministério da Educação na condução desta crise?

Neste quesito, o que chama atenção logo de cara é o envolvimento institucional do Ministério da Educação e do Ministro como peças chave para coordenar uma ação horizontal (intersetorial no âmbito federal) e vertical (em parceria com as províncias).

Escolhemos olhar para o Facebook do Ministério da Educação de três países (Brasil, Argentina e França) numa perspectiva comparativa para entender como o governo está se posicionando, bem como o tipo de mensagens que são colocadas no ar no período da COVID-19.

Seguem algumas informações:

  • A página oficial do MEC não faz nenhuma alusão a COVID 19. A foto oficial do perfil do Ministério francês traz a seguinte mensagem: “Salve as vidas que restam”. No portal argentino, a mensagem é “Argentina Unida”. No perfil brasileiro, a imagem inicial apresenta uma propaganda do Programa Tempo de Aprender, lançado recentemente pelo nosso governo federal;
  • Quando olhamos para as postagens realizadas, mais uma surpresa: entre os dias 06/04 e 14/04, temos apenas uma postagem diretamente relacionada ao COVID 19 no âmbito da Educação Básica (referente ao PNAE- Programa Nacional de Alimentação Escolar).
  • Os recordistas de postagens do MEC são o Programa Tempo de Aprender, FIES e o ENEM.  Ao visitar o perfil do ministério brasileiro temos a sensação de que o Coronavirus é uma mera gripe. Tudo normal;
  • Os ministérios da França e Argentina trazem postagens diárias com orientações para a comunidade escolar e demostram o envolvimento direto dos ministros em conversas diárias com os seguidores para tirar dúvidas, bem como na postagem de vídeos com direcionamento para as questões mais importantes que impactam no planejamento da continuidade pedagógica.

Para não ser totalmente injusto com o MEC, visitamos seu Twitter oficial, que traz um volume um pouco maior de informações. Mesmo assim servem muito pouco para orientação da continuidade pedagógica dos nossos estudantes da educação básica.

É possível considerar que o menor envolvimento do MEC no planejamento dos Estados e Municípios atende ao direito à autonomia dos sistemas de ensino nos diferentes níveis? Talvez sim.

No entanto, ao olhar para os dados de pesquisa sobre o planejamento e governança para enfrentar o desafio da pandemia, fica evidente a necessidade de uma aproximação dos territórios mais frágeis e com menos capacidade técnica.

O CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) lançou uma pesquisa no início deste mês sobre o planejamento das secretarias estaduais e municipais para oferecer aprendizagem remota aos seus estudantes durante o isolamento social. Para acessar a pesquisa, clique aqui.

Após a coleta de dados em 3.032 secretarias de educação de todo o Brasil, constatou-se que 2.520 secretarias municipais (84% dos respondentes) emitiram normativas específicas – a maior parte delas determinando a suspensão das aulas presenciais ou o adiantamento de férias ou recesso escolar. Porém, 63% ainda não orientaram as suas escolas sobre qual estratégia de ensino remoto deve ser adotada neste período.

Sobre as normativas (resoluções, pareceres, recomendações) produzidas pelos Estados e Municípios e seus Conselhos, vale citar que a maioria foi elaborada após o Conselho Nacional de Educação publicar uma nota de esclarecimento no dia 18 de Março de 2020 que autorizou a realização de atividades à distância nas diferentes modalidades de ensino da educação básica e superior (com exceção da Educação Infantil).

As duas semanas seguintes foram de muito trabalho para os Conselhos, que inspirados na normativa federal, puderem se respaldar para o início do planejamento. No entanto, a pesquisa aponta que a maioria das secretarias não conseguiu avançar no passo seguinte: o desenho de suas estratégias.

Na minha atividade como Consultor Educacional e nas conversas com gestores de vários locais do Brasil, percebi que são muitos fatores apontados para este atraso, mas o principal é a incerteza sobre o que fazer. Em outras palavras: a insegurança jurídica para agir num contexto completamente atípico onde não há uma resposta nas legislações vigentes. Os gestores precisam de orientações e parecem aguardar que isso venha do Governo Federal.

Talvez este seja o indicativo de que os secretários de educação (principalmente os mais de quatro mil secretários municipais) esperam mais orientações sobre como garantir segurança alimentar para alunos e famílias, o reposicionamento do calendário escolar de 2020 e principalmente, como apoiar as escolas a manter o vínculo com a enorme parcela de famílias vulneráveis a partir de educações remotas.

Podemos imaginar pelo menos uma dezena de possibilidades de apoio mais direto do Ministério da Educação aos demais entes federados, tais como:

  • Mais celeridade na elaboração de normativas que apoiem a tomada de decisão dos gestores com segurança jurídica;
  • Estar mais presente nos grandes debates sobre os rumos da educação brasileira em tempos de COVID;
  • Usar suas plataformas de comunicação para fortalecer a importância da educação em tempos de pandemia e a necessidade de engajamento da comunidade escolar neste processo;
  • Estabelecer em parceria com Consed (Conselho de Secretários de Estado da Educação) e UNDIME (União de Dirigentes Municipais de Educação) um Programa Nacional de Continuidade Pedagógica que se articule e fortaleça as estratégias estaduais e municipais;
  • Construir um plano de governança nacional para apoiar Estados e Municípios no planejamento de suas estratégias para continuidade pedagógica;
  • Realizar a curadoria e organizar plataformas com objetos digitais de aprendizagem para diferentes níveis, anos e modalidades;
  • Facilitar o acesso à tecnologia a partir de parcerias público-privadas (compra de chips com pacote de dados os alunos e famílias, aquisição de equipamentos tecnológicos as para famílias e professores, subsídio junto às operadoras de telefonia para uso de redes WiFi abertas em áreas vulneráveis, etc);
  • Estabelecer parcerias com Universidades (Públicas e Privadas), Terceiro Setor, ONG´s e empresários para desenvolver soluções que garantam alcance e profundidade aos planos de continuidade pedagógica. Priorizando os municípios com maiores dificuldades financeiras e com capacidade técnica reduzida;
  • Realizar planos de formação em massa, usando a plataforma AVAMEC, para qualificar gestores, professores, alunos e famílias sobre a aprendizagem remota e o uso das TIC´s;
  • Elaboração de materiais pedagógicos de apoio alinhados à BNCC para as Secretarias de Educação com menor capacidade técnica e financeira.

Essas ações não foram inventadas. Estão no planejamento estratégico de vários governos estrangeiros para apoiar a continuidade educacional em seus sistemas de ensino. Vale a nota de que o Brasil, diferente de países como a China, França, Butão, Antigua e Barbuda, Venezuela, Colômbia, Argentina, Nova Zelândia e muitos outros, não apresentou um planejamento estratégico público para a questão da educação em tempos de COVID-19.

Existe uma plataforma da UNESCO chamada Planipolis, que funciona como um importante repositório de políticas educacionais, estruturas-chave da educação e relatórios de monitoramento de vários países.  Ela fornece um ponto de entrada único para os recursos oficiais de educação para os formuladores de políticas nacionais, doadores e parceiros para atender aos desafios do Coronavirus.

A busca mais atualizada neste portal mostra 47 documentos oficiais que tratam sobre o tema. A maioria deles apresenta normativas nacionais e planejamentos ministeriais para lidar com a educação remota. Ao fazer a busca de documentos brasileiros, é perceptível a ausência de um documento oficial que embase as nossas estratégias de forma consistente. Não é possível acha-lo também no site do MEC ou do governo federal brasileiro.

Após a busca no no Planipolis  encontramos: a recente Medida Provisória nº 934 (dispõe sobre as normas excepcionais sobre o ano letivo), a Lei nº 13.987 (dispõe sobre a distribução de gêneros alimentícios pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e uma lista de ações que o Ministério já realizou no contexto da pandemia. Nada que se pareça com um planejamento estratégico.

No entanto, vale ressaltar que foi criado no âmbito do Ministério um Comitê Operativo de Emergência, que articula o MEC, o FNDE, UNDIME, Consed e outras entidades na elaboração de medidas para de combate à disseminação do novo Coronavírus em instituições de ensino básico e superior, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde.  

Este comitê foi instituído pela Portaria 329 de 11 de Março de 2020, publicado no Diário da União. Ele pode ser um caminho institucional interessante para promover a integração sistêmica entre os entes federados. Mas considerando que ele existe a mais de 30 dias e as vozes de dissonância são muito altas entre União, Estados e Municípios, é possível que esta estratégia não tenha surtido até o momento o efeito esperado.

A falta de protagonismo do Ministério da Educação, a falta de sinergia na estrutura vertical de poder, bem como o aparente interesse em pautas desconectadas com as necessidades mais urgentes dos gestores públicos estaduais e municipais cria um hiato de poder importante no debate nacional.

Quem ganha com esse vácuo de poder? A sociedade civil e as organizações do terceiro setor. Eles promovem espaços virtuais de debate com especialistas e gestores públicos para entender e buscar soluções para os grandes desafios que enfrentamos na educação atual.

Organizações como a Fundação Lemann, o Movimento Todos pela Educação, o Instituto Unibanco e vários outros parceiros têm planejado uma série de possibilidades para garantir que as escolas possam oferecer recursos educacionais para seus alunos e que os gestores públicos possam tomar decisões baseadas em evidências e boas práticas. Vou deixar nas referências alguns links para gravações de algumas dessas agendas públicas.

Mas vale a pena ligar um filtro e fazer uma curadoria. Encontramos nas nossas redes sociais e e-mails uma enxurrada de convites para lives e webinars (algumas muito boas, outras nem tanto assim), bem como uma série de guias de ferramentas virtuais que prometem transformar nossas casas em poderosas salas de aula.

Na mesma direção do terceiro setor, temos um grande esforço das Secretarias Estaduais e Municipais, representadas pelo Consed e Undime, de capitanear apoio técnico e recursos humanos para desenvolver suas próprias soluções, mesmo na ausência de orientações e diretrizes mais específicas do Ministério da Educação.

O Conselho Nacional de Educação está desempenhando um importante papel de participar dos espaços de debate, trazendo orientações e sugestões que qualifiquem as diretrizes do MEC, que ainda estão muito aquém das expectativas dos secretários de educação e suas equipes técnicas.

Mesmo com o protagonismo dessas instituições, o papel da União é fundamental para garantir coerência em políticas estruturantes de apoio a aprendizagem. A verdade é que este trabalho não pode ser realizado por outros atores com o mesmo alcance. Em suma, ninguém pode substituir o Ministério da Educação.

Considerações finais:

Nunca precisamos tanto de consensos na educação brasileira como agora. Nos últimos anos enfrentamos debates importantes: Plano Nacional de Educação, Base Nacional Comum, Base Nacional de Formação Docente, ENEM e o FUNDEB. Esses temas reposicionaram os diferentes atores públicos e privados a partir de diferentes visões. Mas a pandemia nos deu uma chance ímpar de criar uma frente mais compacta para fortalecer a educação brasileira.

Estamos perdendo a oportunidade de colocar em prática o Regime de Colaboração, construindo estratégias pedagógicas e de gestão amarradas pela Base Nacional Comum Curricular. Ter uma espinha dorsal dos currículos construídos pelas redes públicas e privadas (com esforço e muito recurso do próprio MEC) daria ao MEC a oportunidade de construir estratégias de alcance nacional: ferramentas digitais, materiais pedagógicos, programas de formação e de comunicação com foco nas aprendizagens essenciais para todos os estudantes do país.

O melhor dos mundos seria um meio termo entre os interesses políticos em nosso país. Mas ao analisar o cenário que vivemos, com profundas divisões ideológicas, parece que estamos distantes de um pacto nacional pela educação brasileira e a mercê de todos os malefícios agregados à paralização das escolas.

Por mais que experimentemos um momento de amplas trocas entre Estados e municípios e uma consistente organização de grupos do Terceiro Setor para apoiar as escolas públicas, não ter o MEC no mesmo time faz falta e aumenta a sensação de descontrole.

O isolamento do Ministério da Educação frente a uma coalização (Estados, Municípios, Terceiro Setor e a Frente Parlamentar pela Educação) terá consequências que ainda não conseguimos mensurar. Vamos esperar e torcer para que este cenário mude.

Referências:

Plataforma de Continuidade Pedagógica da Argentina (Seguimos Educando): https://www.educ.ar/recursos/150936/seguimos-educando

La Nueva Mañana . 07 de Abril de 2020. Producirán cuadernillos para estudiantes en situación de vulnerabilidade.  https://lmdiario.com.ar/contenido/214079/produciran-cuadernillos-para-estudiantes-en-situacion-de-vulnerabilidad

Discurso do Ministro Nicolas Trotta no Facebook:  https://www.facebook.com/trottanico/videos/528461617853780/

Guia de estratégias de aprendizagem remota do CIEB: http://cieb.net.br/wp-content/uploads/2020/04/CIEB-Planejamento-Secretarias-de-Educacão-para-Ensino-Remoto-030420.pdf

Plataforma de planejamento e Políticas Públicas da UNESCO: https://planipolis.iiep.unesco.org/en

Ações do Governo Brasileiro de enfrentamento ao COVID 19 no âmbito da educação: http://portal.mec.gov.br/component/content/index.php?option=com_content&view=article&id=86791%3Acoronavirus-saiba-quais-medidas-o-mec-ja-realizou-ou-estao-em-andamento&catid=12&Itemid=86

Portaria de Regulamentação do Comitê Operativo de Emergência do Ministério da Educação: http://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-n-329-de-11-de-marco-de-2020-247539570?inheritRedirect=true&redirect=%2Fweb%2Fguest%2Fsearch%3FqSearch%3DComit%25C3%25AA%2520Operativo%2520de%2520Emerg%25C3%25AAncia

Resolución 106/2020, de 15 de março de 2020 – Institui o Programa Seguimos Educando: https://planipolis.iiep.unesco.org/en/2020/argentina-resoluciones-108-2020-suspensi%C3%B3n-de-clases-y-106-2020-programa-seguimos-educando-6888

UNESCO. Three ways to plan for equity during the coronavirus school closures – Disponível em http://www.iiep.unesco.org/en/three-ways-plan-equity-during-coronavirus-school-closures-13365

Organização Mundial da Saúde/Unicef/FICR – Mensajes y acciones importantes para la prevención y el control del COVID-19 en las escuelas – https://www.unicef.org/media/65851/file/Key%20Messages%20and%20Actions%20for%20COVID-19%20Prevention%20and%20Control%20in%20Schools_Spanish.pdf

UNESCO –  How are countries addressing the Covid-19 challenges in education? A snapshot of policy measures – https://gemreportunesco.wordpress.com/2020/03/24/how-are-countries-addressing-the-covid-19-challenges-in-education-a-snapshot-of-policy-measures/

World Bank Group Education – POLÍTICAS EDUCACIONAIS NA PANDEMIA DO COVID-19: O QUE O BRASIL PODE APRENDER COM O RESTO DO MUNDO? – https://institutoayrtonsenna.org.br/content/dam/institutoayrtonsenna/hub-socioemocional/politicas-educacionais-na-pandemia-do-covid-19.pdf

UNESCO. Three ways to plan for equity during the coronavirus school closures – Disponível em http://www.iiep.unesco.org/en/three-ways-plan-equity-during-coronavirus-school-closures-13365

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