Autonomia discente: nossos alunos estão preparados para estudar em casa durante a Pandemia?

Em tempos de pandemia, muitas discussões educacionais estão focadas na viabilidade pedagógica das estratégias de continuidade dos estudos em casa durante o isolamento social.

Gostaria de me “cutucar essa onça” em mais um ponto que deve ganhar (ou deveria) visibilidade no planejamento das escolas da Educação Básica a partir da implementação dos currículos alinhados à Base Nacional Comum Curricular. Como apoiar alunos do Ensino Fundamental e Médio a entender qual a melhor forma de aprender? Como ajudar nossos alunos a desenvolver a competência de aprender a aprender?

A Base Nacional define 10 Competências Gerais que são essenciais para o desenvolvimento da trajetória formativa dos estudantes. Elas precisam ser trabalhadas ao longo da Educação Básica junto com os componentes curriculares. Uma delas (a décima) diz que os alunos devem “agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários” (Brasil, p.10).

Ela anda em paralelo com a primeira e a oitava competências gerais da BNCC, que abordam, entre outros aspectos a metacognição, o autoconhecimento e o autocuidado. Elas refletem a capacidade de desenvolver a atenção plena e a autorreflexão. Estes são elementos essenciais para que o estudante seja capaz de compreender como pode aproveitar melhor seus momentos de estudo, seja coletivo, seja individual.

Vale destacar que o desenvolvimento da autonomia ao longo da vida pode ser entendido em várias dimensões. Dentre elas está a capacidade de desenvolver estratégias para seu próprio desenvolvimento cognitivo.

Em uma proposta de educação centrada no aluno, como a que está proposta na Base, é de suma importância que um estudante compreenda quais as melhores estratégias para lidar com as tarefas e os desafios propostos para a aquisição de competências, habilidades e conhecimentos que estão no currículo aplicado no dia a dia escolar.

Assisti recentemente à um vídeo no Youtube chamado “… Student Motivation Through Understanding Themselves as a Learner.” (Motivação do aluno através do entendimento de si mesmo como um aprendiz). O vídeo foi produzido pela Pearson e teve a participação das pesquisadoras e professoras Jodi Patrick Holschuh (PhD e professora associada no Departamento de Currículo e Instrução da Universidade Estadual do Texas) e Sherrie Nist-Olejnik (Professora emérita da Universidade da Geórgia).

Sherrie publicou cerca de 80 artigos ao longo de sua carreira tratando sobre as formas como alunos universitários aprendem e estudam. Segundo elas, ensinar teoria da aprendizagem, teoria das crenças epistemológicas e teoria da aprendizagem motivacional podem ajudar os alunos a compreender como estudar de forma mais eficiente, mitigando as dificuldades e os fracos resultados que apresentam, principalmente nos primeiros anos da Universidade.

Ao longo do vídeo, produzido em 2013, as pesquisadoras apresentam importantes insights sobre como incorporar atividades para o desenvolvimento de estratégias de compreensão do estilo de aprendizagem aos currículos.

Elas apontam três motivos para que os alunos sejam expostos à teorias de aprendizagem:

1 – Aprender é um processo complexo;

2 – Crenças sobre a aprendizagem influenciam a forma como eles aprendem (alunos podem ser desviados de suas melhores estratégias por não conhecê-las com profundidade ou por fazer escolhas erradas);

3 – Ensinar sobre aprendizagem afeta a persistência e motivação dos alunos.

Tema bastante recorrente nos estudos da psicologia cognitiva, e capitaneado, entre outros pesquisadores, pelo americano James J. Jenkins (1923-2012), os modelos de aprendizagem em sala de aula podem trazer mais alguma luz sobre essa discussão.

Segundo o “tetrahedral model of classroom learning” (Jenkins, 1979), na qual as autoras se apoiam, o processo de aprendizagem precisa considerar quatro elementos: as características do aluno (sua motivação, conhecimento sobre estilos de aprender e limitações) , os materiais (textos ou insumos com os quais o aluno deve interagir) ; as tarefas (atividade definida para lidar com os materiais) e as estratégias (habilidades necessárias para lidar com as tarefas).

Na medida em que esses elementos se alinham e os alunos têm clareza sobre as melhores estratégias de aprender, é possivel, segundo Jodi e Sherry, dar-lhes mais autonomia e motivação para a realização das tarefas escolares.

Retornando à realidade da educação brasileira em tempos de pandemia, nossos modelos de estudo por mediação de tecnologia (ou não) demandam dos nossos alunos uma autonomia e capacidade de escolha/uso de ferramentas de estudo que certamente estiveram sempre fora de seus programas escolares.

Já temos na educação brasileira o problema relacionado ao aprendizado. Este bem latente e discutido. Nossos alunos não sabem ler, escrever e calcular com proficiência adequada. Outro problema que ficará escancarado em tempos de pandemia é a falta de autonomia para aprender: muitos alunos não sabem como estudar de forma eficiente. Não compreendem como aprendem melhor: lendo, escrevendo, ouvindo, falando.

Talvez seja uma oportunidade de refletir, na pós-pandemia, sobre como construir planos de aprendizagem que suscitem essa reflexão em nossos alunos. É um tipo de ganho que ultrapassa a própria escola. O ato de aprender acompanha o ser humano ao longo de toda a vida. Por isso, ajudá-lo o quanto antes a avaliar quais as suas próprias crenças sobre este tema e permitir que desenvolvam métodos próprios com base em suas experiências ao longo da vida escolar.

Temos com a Base Nacional e as sua 10 Competências Gerais, que carregam a bandeira da Educação Integral, uma grande oportunidade de mudar nosso modelo educacional. Isso depende dos sistemas de ensino incorporarem a necessidade de “aprender a aprender”. De forma sistêmica, podem orientar gestores e professores a desenvolver em seus programas curriculares momentos onde alunos possam construir a autonomia como uma competência perene, e que sejam capazes de definir e mobilizar o melhor de si.

Quanto mais os alunos controlam o processo de aprendizagem e enxergam possibilidades de resolver problemas e desafios escolares, mais se prepara para a vida. São pequenas percepções que podem gerar grandes mudanças em nossos alunos. Afinal, quanto mais aprendem, melhor.

Referências:

Brasil (2017). Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação

Jenkins, J.J. (1979). Four points to remember: A tetrahedral model of memory experiments. In L.S. Cermak and F.I.M. Craik (Eds.) Levels of processing in human memory. Hillsdale, N.J.: Erlbaum Associates, pp. 429–446.

Um comentário em “Autonomia discente: nossos alunos estão preparados para estudar em casa durante a Pandemia?

  1. Texto incrível, escrito por quem sabe o que está falando. Vale a pena ser lido, não só pelos profissionais de educação, mas também por pais que precisam entender que o papel da escola vai além do de passar conteúdos.👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

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